Uma nova métrica internacional está provocando mudanças importantes no debate sobre alimentação e nutrição: mais de 2,8 bilhões de pessoas no mundo não conseguem pagar por uma dieta saudável – mesmo estando acima da linha da pobreza.
Esse é o alerta do projeto Food Prices for Nutrition, conduzido pela Tufts University, nos Estados Unidos, que pela primeira vez quantificou o custo real de uma dieta saudável em todos os países. O estudo, publicado na revista Nature Food, aponta que uma alimentação nutricionalmente adequada custa em média US$ 3,68 por pessoa ao dia, enquanto a linha da pobreza extrema gira em torno de US$ 2,15.
A disparidade escancara um ponto cego das políticas alimentares: mesmo fora da extrema pobreza, milhões de pessoas ainda não conseguem acessar refeições que atendam às necessidades básicas de saúde. Em países da África, por exemplo, mais de 80% da população está nessa situação.
O que isso tem a ver com políticas públicas e foodservice?
Para Will Masters, economista e professor da Tufts, essa métrica muda o jogo. Pela primeira vez, governos podem medir objetivamente se a população tem acesso ao que é necessário para viver com saúde. E esse dado já começa a ser usado como referência para negociações salariais, planejamento agrícola e políticas de segurança alimentar.
Desde 2020, a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) adota os métodos do projeto para monitorar a acessibilidade alimentar global. Nigéria, Etiópia, Malawi e Paquistão estão entre os países que começaram a aplicar o indicador internamente — e a Nigéria já publica boletins mensais oficiais com esses dados.
A relevância para o setor de alimentação fora do lar é direta. À medida que o custo e a percepção de uma dieta saudável se tornam mais visíveis, cresce também a pressão por modelos de negócio mais acessíveis e sustentáveis. Inovação em insumos, redução de perdas na cadeia e modelos de operação mais eficientes passam a ser estratégicos, especialmente em países em desenvolvimento.
Diagnóstico para ação: onde estão os gargalos?
O estudo oferece mais do que um retrato do problema: ele propõe um caminho de ação. A métrica permite distinguir se a causa da má alimentação está no preço dos alimentos, na renda da população ou em outros fatores — como tempo para preparo, cultura alimentar ou influência do marketing.
Quando a barreira está no preço ou na disponibilidade local, o foco deve ser em inovação para reduzir custos e ampliar o acesso. Em outros casos, pode ser necessário investir em educação alimentar, redes de proteção social ou revisão de incentivos na cadeia produtiva.
Segundo os pesquisadores, os próximos passos envolvem parcerias com fornecedores africanos para desenvolver cadeias de abastecimento com alimentos saudáveis e de baixo custo, além do apoio contínuo a governos que desejam aplicar o indicador em políticas públicas.
Um novo olhar sobre acessibilidade
Durante décadas, falou-se sobre tornar a alimentação saudável acessível. Agora, como destaca Will Masters, existe um método concreto para mensurar essa acessibilidade — e um apelo urgente para transformar o dado em ação.
O desafio é global, mas seu enfrentamento depende de soluções adaptadas a contextos locais. Para o setor de foodservice, entender essas barreiras e colaborar com respostas escaláveis pode ser um diferencial competitivo — e um compromisso social.
Fonte: healthnews







