São Paulo acaba de ganhar uma experiência inédita no varejo alimentar da América Latina. No Centro da capital, a Gomo Coop abriu as portas como o primeiro mercado cooperativo sem patrão da cidade — e com uma lógica que muda completamente a relação entre consumo, trabalho e gestão.
Por ali, não basta passar o cartão. Para fazer compras, é preciso se tornar cooperante: adquirir uma cota de R$ 100 e dedicar três horas mensais de trabalho ao funcionamento do mercado. Em troca, cada pessoa passa a ser, ao mesmo tempo, cliente, dona e trabalhadora, com direito a um voto nas decisões, independentemente do número de cotas que possua.
O modelo, conhecido como cooperativa de consumo participativa, ainda é pouco comum no Brasil, mas ganha força em um momento em que temas como concentração de mercado, acesso a alimentos mais justos e fortalecimento de produtores locais entram cada vez mais no radar do foodservice e do varejo.
Um mercado sem patrão — e com decisões coletivas
Localizada na Rua Santa Isabel, a Gomo Coop funciona a partir de uma lógica simples: reduzir custos operacionais, eliminar a figura do “patrão” e redistribuir o poder de decisão. As tarefas dos cooperantes vão do caixa à reposição de mercadorias, da limpeza a atividades administrativas — sempre organizadas de forma coletiva.
A ideia é que, com o amadurecimento da operação, os talentos individuais possam ser aproveitados de formas mais diversas. Um cooperante com experiência em finanças, por exemplo, pode contribuir na gestão. Alguém da área de bem-estar pode oferecer aulas ou atividades para a comunidade como parte do turno mensal.
Resposta à concentração do varejo alimentar
O projeto nasce também como uma reação direta à alta concentração de marcas no varejo. Dados do Atlas do Agronegócio indicam que até 70% das compras de uma família brasileira vêm de apenas dez grandes fabricantes — um cenário que reduz a diversidade nas prateleiras e limita as escolhas do consumidor.
Na Gomo, a prioridade está em produtos orgânicos, agroecológicos e de pequenos produtores, muitos deles da própria cidade de São Paulo. Fornecedores como associações de agricultores da Zona Leste e cooperativas da Zona Sul fazem parte da rede.
Mais do que vender, a proposta é devolver à comunidade o poder de decidir o que é produzido, comprado e consumido.
Inspiração internacional, adaptação local
A principal referência da Gomo Coop vem de Nova York: a Park Slope Food Coop, que há mais de 50 anos opera com base no trabalho mensal obrigatório dos cooperantes. O modelo também inspirou iniciativas como a francesa La Louve, em Paris, e agora ganha versão brasileira.
A ideia começou a tomar forma em 2021, durante a pandemia, a partir de encontros virtuais sobre cooperativismo. Desde então, o projeto foi viabilizado por cotas-partes, empréstimos solidários entre cooperantes fundadores e uma campanha de financiamento coletivo, que arrecadou mais de R$ 100 mil para a compra inicial de produtos.
Hoje, a Gomo já reúne cerca de 700 cooperantes.
Preço mais justo, mas dependente de engajamento
A promessa de preços mais acessíveis existe, mas vem acompanhada de um alerta: o sucesso do modelo depende diretamente do volume de cooperantes e da concentração das compras no próprio mercado.
Quanto mais gente participa, maior o poder de compra coletivo — e maior a capacidade de negociar preços, reduzir intermediários e manter a operação sustentável.
O que o foodservice pode aprender com esse modelo?
A Gomo Coop sinaliza uma tendência importante: consumidores dispostos a participar ativamente da cadeia, não apenas como compradores, mas como agentes de decisão. Para o foodservice, o modelo provoca reflexões sobre governança, propósito, relação com fornecedores e novas formas de engajamento comunitário.
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Fonte: G1







