A reforma tributária do consumo vai muito além da criação de novos impostos ou da prometida simplificação do sistema. Considerada uma das maiores mudanças na estrutura econômica do país nas últimas décadas, ela altera de forma significativa a lógica de formação de preços das empresas — e pode afetar diretamente a competitividade dos pequenos negócios.
Segundo Charles Gularte, sócio-diretor de contabilidade e relações institucionais da Contabilizei, uma das principais mudanças está em um fator que antes tinha pouco peso na precificação: o perfil do cliente final. A partir de 2027, passa a fazer diferença se o contratante é pessoa física, microempresa ou uma companhia de maior porte.
Na prática, isso significa que o custo percebido de um serviço ou produto muda, influenciando preços, contratos e decisões de compra. “Com a ampliação da lógica de débito e crédito dos impostos, as empresas passam a tomar crédito apenas sobre o tributo efetivamente pago ao longo da cadeia. Fornecedores que pagam menos imposto, como os optantes pelo Simples Nacional, geram menos crédito para quem contrata”, explica Gularte.
Esse novo cenário tende a pressionar especialmente os pequenos negócios. Mesmo com preços semelhantes, fornecedores que geram mais crédito tributário podem se tornar mais atrativos para o contratante, ainda que o valor nominal seja maior. “O risco é o pequeno negócio perder contratos sem entender exatamente o motivo”, alerta o executivo.
Serviços e construção civil sentem mais o impacto
O impacto da reforma não será igual para todos os setores. Varejo e indústria, por operarem em cadeias longas e com geração recorrente de crédito tributário, tendem a sentir menos os efeitos da mudança.
Já o setor de serviços enfrenta desafios maiores. Com cadeias curtas, poucos insumos tributáveis e forte peso da mão de obra — que não gera crédito —, o imposto tende a se concentrar na ponta da prestação. Isso pressiona margens e preços e pode reduzir a atratividade desses negócios para empresas que consideram o crédito tributário na hora de contratar.
A construção civil é um dos segmentos mais sensíveis. De acordo com Liêda Amaral, sócia da BSSP Consulting e uma das autoras do estudo “Reforma Tributária – análise de impactos na cadeia produtiva da construção civil”, a combinação entre serviços intensivos, mão de obra e cadeias pulverizadas pode elevar significativamente os custos do setor.
“Em alguns casos, o impacto pode representar aumentos relevantes no custo total das obras, chegando a até 20%, o que exige revisão de modelos de precificação e de negociação”, afirma.
Simples Híbrido exige mais planejamento
Para mitigar parte desses efeitos, a reforma cria o chamado Simples Híbrido, que permite às empresas optarem, em determinados casos, pela apuração dos novos tributos do consumo pelo regime regular, quando isso for mais vantajoso.
Apesar da flexibilidade, a decisão continuará exigindo planejamento antecipado. A escolha do regime deverá ser feita semestralmente, nos meses de março e setembro, com impacto nos períodos seguintes. Para 2027, por exemplo, a definição precisará ocorrer ainda em 2026.
“O pequeno empresário já tem dificuldade hoje para formar preços corretamente. Com a reforma, qualquer erro passa a custar ainda mais caro”, destaca Gularte.
Mapear o perfil dos clientes, entender quem se beneficia do crédito tributário e simular cenários de precificação deixam de ser tarefas opcionais e passam a fazer parte da estratégia de sobrevivência e crescimento.
Competitividade além do imposto
Embora o Simples Nacional seja mantido, a reforma tende a impactar a competitividade de forma indireta, especialmente na relação entre quem contrata e quem presta o serviço.
“Quem contrata vai olhar o fornecedor de forma diferente. Não é apenas sobre o imposto pago, mas sobre o custo final após o aproveitamento do crédito tributário”, resume Gularte.
Para o Portal Foodbiz, o recado é claro: a reforma tributária muda as regras do jogo. Entender como essa nova lógica afeta preços, contratos e posicionamento de mercado será decisivo para que pequenos negócios não percam margem, competitividade e sustentabilidade no médio e longo prazo.
Matéria originalmente publicada pela CNN, com adaptação editorial do Portal Foodbiz







