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Carnaval de SP pressiona ambulantes

Imagem: Hildeberto Jr…

Tão disputados quanto as atrações dos blocos, os vendedores ambulantes precisaram redobrar os esforços para chamar a atenção dos foliões no Carnaval de São Paulo. Fantasias, abordagens diretas e cardápios improvisados no meio dos “pesadões” — como chamam os corredores formados entre caixas de bebidas — fizeram parte da estratégia para tentar garantir uma margem de lucro em meio à concorrência ampliada.

O aumento no número de credenciados neste ano impactou diretamente os ganhos. “A prefeitura aumentou o número de vagas e ficou mais difícil vender por conta da concorrência”, relatou Fernando Nogueira, 46 anos, que trabalhou ao lado da mãe, Maria de Lourdes, 66, no circuito do Ibirapuera. Até a terça-feira de Carnaval, segundo ele, o faturamento apenas empatava o investimento inicial. O lucro começou a aparecer apenas nos últimos dias de festa.

Fernando, que atua como motorista de aplicativo ao longo do ano, participa do Carnaval como ambulante há seis edições. “Acredito que seria mais lucrativo trabalhar como motorista, mas venho para dar retaguarda a ela”, afirmou, referindo-se à mãe. Eles integram um contingente de cerca de 15 mil ambulantes cadastrados para a edição deste ano.

Exclusividade e impacto no modelo de operação

O contrato de patrocínio firmado com a gestão municipal concedeu a uma indústria de bebidas a exclusividade de comercialização nos desfiles de blocos entre 7 e 22 de fevereiro. A empresa pagou R$ 30,2 milhões pela cota. Na prática, os ambulantes credenciados compram os produtos da marca patrocinadora para revenda ao público.

O modelo, comum em grandes eventos, reacende discussões sobre dependência de um único fornecedor, padronização de portfólio e margem dos vendedores autônomos. Para parte dos trabalhadores, a combinação entre exclusividade e aumento no número de licenças reduziu a rentabilidade individual.

Infraestrutura e logística sob pressão

Além da concorrência, ambulantes relataram dificuldades operacionais. Para garantir entrada no dia seguinte no Ibirapuera, alguns afirmaram precisar deixar o local por volta das 16h para já formar fila novamente. Grupos se organizaram em revezamentos noturnos para manter posições.

Queixas também envolveram falta de estrutura básica — como banheiros e áreas de descanso — e episódios de repressão durante tumultos, com relatos de mercadorias danificadas. Diante das reclamações, o Ministério Público do Trabalho notificou a Prefeitura de São Paulo e a patrocinadora para que assegurassem condições mínimas de trabalho aos vendedores oficiais.

A prefeitura informou que o cadastro de ambulantes faz parte das etapas de organização do Carnaval de Rua e que o credenciamento foi realizado pela patrocinadora, responsável também pela entrega dos kits aos habilitados. Já a empresa afirmou seguir as regras previstas no edital e cumprir as obrigações contratuais.

Renda menor e incertezas para 2026

Para muitos trabalhadores, o Carnaval representa uma importante fonte de renda complementar. Tânia Araújo Soares, 34 anos, que há oito anos utiliza as férias do emprego em uma loja de roupas para atuar como ambulante, relatou queda significativa no faturamento. “Eu costumava tirar em torno de R$ 8 mil por ano. Desta vez, mal cheguei a R$ 2 mil até agora”, afirmou.

Segundo ela, o crescimento dos blocos e o aumento das atrações não se traduziram em melhores resultados para os vendedores. A concentração de ambulantes nos mesmos circuitos — buscando blocos com maior expectativa de público — intensificou a competição e, em alguns pontos, gerou saturação de oferta.

Na Consolação, ambulantes também apontaram movimento abaixo do registrado em 2024. Para alguns, a logística urbana e a concentração de grandes atrações no mesmo dia prejudicaram o fluxo de público e, consequentemente, as vendas.

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Fonte: Folha de SP

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