Secas, ondas de calor e chuvas extremas afetam safras, elevam custos de matérias-primas e aumentam o risco de pressão sobre a inflação de alimentos
As mudanças climáticas estão deixando de representar apenas um desafio ambiental para ganhar espaço nas discussões sobre custos, inflação e abastecimento de alimentos. Eventos extremos, como ondas de calor, períodos prolongados de seca e chuvas intensas, vêm afetando a produção agrícola em diferentes países e pressionando preços de matérias-primas importantes para toda a cadeia de alimentação.
Para o foodservice, o cenário merece atenção. Alterações nos preços de produtos como café, açúcar, milho, carnes, leite, ovos, frutas e hortaliças podem chegar aos custos dos restaurantes e demais operadores, aumentando a necessidade de acompanhar fornecedores, fichas técnicas, margens e composição dos cardápios.
O fenômeno já vem sendo chamado de “inflação climática”, em referência ao impacto que eventos extremos podem exercer sobre a oferta e, consequentemente, sobre os preços dos alimentos. Levantamento citado pela Veja identificou uma série de altas de preços relacionadas a condições climáticas extremas entre 2022 e 2026.
El Niño pode pressionar inflação no Brasil
No Brasil, o impacto do clima também entrou no radar das projeções econômicas. Pesquisa realizada pelo Banco Central com economistas, em junho, apontou estimativa mediana de que o El Niño poderia acrescentar 0,3 ponto percentual à inflação de 2026 e 0,4 ponto percentual em 2027, com os efeitos aparecendo inicialmente nos alimentos.
A exposição brasileira é especialmente relevante devido à dimensão da produção agrícola do país e à sua participação no comércio internacional de commodities.
Mudanças na temperatura e no regime de chuvas podem interferir na produtividade, no calendário de plantio e colheita e na disponibilidade de água, criando impactos que percorrem toda a cadeia até chegar ao consumidor.
Café e açúcar estão entre os produtos no radar
O café é um dos exemplos dessa vulnerabilidade. A safra brasileira de 2026 havia sido inicialmente estimada pela Conab em 66,7 milhões de sacas de 60 quilos, mas condições de calor excessivo e irregularidade das chuvas podem afetar o resultado da produção.
A cana-de-açúcar também enfrenta desafios. Chuvas acima do normal no Centro-Sul vêm atrasando a colheita e afetando a concentração de açúcar na matéria-prima. Uma redução na produção brasileira pode ter reflexos não apenas no mercado doméstico, mas também nas cotações internacionais.
Outro ponto de atenção é o milho. Além de ser utilizado diretamente pela indústria de alimentos, o grão tem papel importante na alimentação animal. Uma quebra de safra pode, portanto, ampliar custos de produção de carnes, leite e ovos.
Eventos extremos já afetam alimentos em outros países
Os efeitos também são observados internacionalmente. Na França, condições de calor e seca afetaram a produção agrícola, enquanto Espanha e Estados Unidos enfrentaram impactos associados a chuvas intensas, períodos secos e altas temperaturas.
No Japão, até ingredientes ligados diretamente ao foodservice foram afetados: o aquecimento das águas prejudicou a produção de nori, alga amplamente utilizada na culinária japonesa, contribuindo para a elevação dos preços do produto.
Os exemplos mostram como eventos climáticos locais podem repercutir em cadeias de abastecimento cada vez mais conectadas globalmente.
O impacto pode chegar aos restaurantes
Para restaurantes, bares, cafeterias, padarias, redes e demais operações de alimentação fora do lar, a inflação climática adiciona uma nova variável à gestão de custos.
Quando matérias-primas essenciais ficam mais caras, os operadores precisam decidir quanto desse aumento pode ser absorvido, quanto pode ser compensado por ganhos de produtividade e, em alguns casos, quanto precisa chegar ao preço final.
O desafio pode ser ainda maior quando diferentes ingredientes são afetados simultaneamente ou quando os eventos extremos provocam oscilações frequentes na oferta.
Nesse cenário, estratégias como diversificação de fornecedores, acompanhamento mais próximo dos custos, revisão de fichas técnicas, engenharia de cardápio e redução de desperdícios ganham relevância para proteger margens e diminuir a exposição das operações.
Clima se torna mais uma variável para os custos dos alimentos
O Banco Central já considera eventos climáticos entre os riscos de alta para os preços devido aos possíveis efeitos sobre a produtividade agrícola e os custos de energia. A questão ganha importância porque a política monetária consegue atuar sobre a demanda, mas possui capacidade limitada para corrigir choques provocados diretamente pela perda de uma safra ou pela redução da produtividade agrícola.
Uma análise da Zero Carbon Analytics citada pela publicação estima que, até 2035, o aquecimento poderá acrescentar, em determinado cenário projetado pelos pesquisadores, até 3,23 pontos percentuais por ano à inflação dos alimentos e 1,18 ponto percentual à inflação geral. Trata-se de uma projeção sujeita às premissas do estudo, mas que evidencia a dimensão potencial do risco.
Para o foodservice, acompanhar o clima passa, portanto, a ter relação cada vez mais direta com abastecimento, planejamento de compras, formação de preços e rentabilidade. Em um setor altamente sensível ao custo dos insumos, eventos climáticos extremos podem se tornar mais um componente estrutural das decisões de gestão.
Fonte-base: Veja, publicada em 30 de setembro e atualizada em 1º de outubro de 2026







