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Café e clima: ciência busca grãos mais resistentes

REUTERS/Alexandre Meneghini

Com o avanço das mudanças climáticas colocando em risco a produção global de café, pesquisadores brasileiros estão olhando para fora do padrão tradicional — e encontrando respostas em espécies pouco exploradas.

No Instituto Agronômico de Campinas (IAC), em São Paulo, o cenário foge do que se vê nas lavouras convencionais. Em vez de fileiras homogêneas de café, há uma verdadeira coleção de plantas diferentes entre si. Ali, cientistas estudam cerca de 15 espécies não comerciais, como liberica, racemosa e stenophylla, em busca de características que possam garantir o futuro do café arábica.

A preocupação é concreta. Segundo relatório recente do Rabobank, até 2050 cerca de 20% das áreas atualmente adequadas para o cultivo de arábica podem se tornar inviáveis. Para um país como o Brasil — maior produtor global — o impacto pode ser significativo.

É nesse contexto que entram as chamadas espécies “selvagens”. Embora menos populares comercialmente, elas apresentam vantagens importantes: maior resistência ao calor, à seca e a doenças.

A estratégia dos pesquisadores não é substituir o arábica, mas fortalecê-lo. O trabalho consiste em cruzar geneticamente o arábica com essas espécies mais rústicas, buscando criar híbridos mais resilientes sem perder qualidade e produtividade.

Alguns avanços já chamam atenção. O cruzamento com a espécie liberica, por exemplo, tem mostrado maior resistência à ferrugem — uma das principais doenças do café. Já a combinação com a racemosa contribui para combater o bicho-mineiro, praga recorrente nas lavouras.

Mas o caminho é longo. O desenvolvimento de novas variedades pode levar de 20 a 30 anos, já que exige testes em diferentes condições climáticas e avaliações contínuas de desempenho.

Para especialistas, esse tipo de pesquisa não é apenas relevante — é essencial. O arábica tem uma base genética limitada, o que aumenta sua vulnerabilidade. Incorporar novos genes pode ser a chave para manter a cadeia produtiva ativa nas próximas décadas.

Para o foodservice, o impacto vai além da lavoura. Mudanças na produção de café afetam preço, qualidade e disponibilidade — três fatores diretamente ligados à experiência do consumidor e à operação de cafeterias e restaurantes.

O movimento observado no Brasil sinaliza um ponto importante: inovação no campo será determinante para sustentar tendências no consumo urbano.

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