Pesquisadores brasileiros e peruanos estão liderando uma transformação promissora: o reaproveitamento da semente de abacate — um resíduo até então ignorado — como matéria-prima para a produção de uma enzima de alto valor para a indústria, a lipase. O projeto, conduzido por uma equipe da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) com apoio da FAPERJ, reúne 15 cientistas e valoriza a atuação de mulheres na ciência e na economia latino-americana.
Inovação a Partir da Natureza
A proposta da pesquisa é simples e poderosa: utilizar farinha obtida da semente do abacate como meio de cultivo para microrganismos capazes de produzir lipase. Fungos como Rhizopus oryzae e Aspergillus oryzae metabolizam os lipídios presentes na semente, gerando a enzima com eficiência. A lipase, que pode custar até R$ 1.200 por grama no mercado, torna-se, assim, acessível e sustentável.
Com essa abordagem, resíduos agroindustriais ganham nova vida e o impacto ambiental é significativamente reduzido. A semente, que representa cerca de 18% do peso do fruto e contém aproximadamente 12% de óleo, costuma ser descartada — mas agora surge como uma aliada da inovação.
Um Ingrediente-Chave para Diversas Indústrias
A lipase tem aplicações amplas. No setor de biocombustíveis, ela é essencial para a produção de biodiesel, catalisando a conversão de óleos em ésteres. Na indústria alimentícia, é usada para aprimorar textura e sabor de queijos, pães e outros alimentos. E na farmacêutica, desempenha papel importante na digestão de lipídios e na formulação de medicamentos.
A pesquisadora Eliane Pereira Cipolatti, da UFRRJ, destaca:
“A lipase desempenha um papel vital na inovação e eficiência de diversas indústrias. […] Estamos estudando também compostos antioxidantes vitais para o organismo.”
Além da lipase, a equipe avalia o potencial de compostos antioxidantes extraídos da semente. Eles podem atuar na prevenção de doenças e no combate ao envelhecimento precoce, embora ainda exijam processos de estabilização para garantir sua eficácia.
Dados que Mostram o Potencial
A produção anual de abacate na América Latina impressiona. Só o Brasil colhe mais de 338 mil toneladas, enquanto o Peru ultrapassa 550 mil. Isso gera um volume expressivo de sementes, antes tratadas como descarte e agora vistas como recurso estratégico para a economia circular.
Ciência que Gera Impacto
O projeto tem apoio do programa Jovem Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ, e se alinha a um ambiente de inovação fortalecido por eventos como o Workshop de Mapeamento de Atores e Diagnóstico do Ecossistema de Inovação de Seropédica, realizado em maio de 2025 na UFRRJ. Tais iniciativas impulsionam a pesquisa aplicada e o empreendedorismo científico.
Segundo Cipolatti:
“As enzimas aceleram reações químicas de forma limpa, sem gerar resíduos tóxicos. […] Isso é fundamental para processos mais sustentáveis.”
O Futuro da Pesquisa
Os próximos passos da equipe envolvem garantir a estabilidade dos compostos antioxidantes e ampliar a produção da lipase em escala industrial. A expectativa é que a tecnologia extrapole fronteiras e traga benefícios econômicos, ambientais e sociais a outros países produtores de abacate.
Essa iniciativa é um exemplo claro de como ciência, sustentabilidade e inovação podem andar juntas para criar soluções concretas a partir de resíduos. A semente do abacate, antes invisível, agora desponta como uma protagonista no cenário da bioeconomia.
Fonte: Portal Universidade







