No sudoeste da França, tradição e inovação se unem em um laboratório que vem revolucionando o universo do vinho. Diante de uma demanda global crescente por bebidas sem álcool, uma nova tecnologia de desalcoolização está abrindo espaço para uma categoria mais saudável — sem abrir mão do sabor e da sofisticação da bebida original.
A iniciativa é liderada pela startup Moderato, em parceria com o grupo de viticultores Vivadour, que instalou em Gers um centro dedicado exclusivamente à retirada de álcool dos vinhos. O processo é feito por destilação a frio, método que preserva os aromas característicos ao mesmo tempo que entrega um produto final com 0% de álcool.
“Os clientes esperam um vinho sem álcool, mas com toda a complexidade sensorial do original”, afirma Romain Laher, engenheiro responsável pelo projeto.
Como funciona o processo?
A tecnologia utilizada reduz a pressão dentro do equipamento, o que diminui o ponto de ebulição do álcool. Isso permite sua extração em temperaturas mais baixas que as da destilação tradicional — evitando a perda de compostos voláteis importantes para o aroma e o paladar. A operação é cuidadosamente controlada e inclui etapas como a transição do álcool para sua fase gasosa.
Apesar da ausência do teor alcoólico, o processo de vinificação não difere muito do convencional. Segundo o enólogo Frédéric Ben, do Le Chai Sobre, os cuidados técnicos permanecem os mesmos até o momento da desalcoolização. Uma das adaptações necessárias é o equilíbrio da acidez: com a retirada do álcool, o vinho pode parecer mais ácido ao paladar, e isso é compensado com uma leve adição de açúcar.
O que impulsiona essa transformação?
O interesse por vinhos sem álcool cresce em todo o mundo — especialmente entre jovens adultos, que buscam opções mais leves e alinhadas ao estilo de vida saudável. Projeções indicam que a produção francesa deve alcançar 6 mil hectolitros este ano, com expectativa de crescimento de 50% ao ano. A capacidade instalada pode chegar a 80 mil hectolitros anuais.
Essa movimentação acompanha uma mudança estrutural no consumo. Segundo o CNIV (Comitê Nacional de Vinhos e Aguardentes da França), o consumo de vinho no país pode cair 25% até 2035. Em contrapartida, o mercado global de vinhos sem álcool deve saltar de US$ 1,8 bilhão em 2022 para US$ 5 bilhões até 2032, segundo a consultoria Fact.MR.
Uma resposta francesa à evolução do consumo
A criação do centro em Gers é um exemplo claro de como o setor vinícola francês está se adaptando às transformações do mercado. Preservar o legado cultural do vinho, mas conectá-lo às novas demandas por bem-estar, moderação e sustentabilidade — essa é a estratégia por trás da inovação.
No coração da tradição, a tecnologia ganha espaço como aliada de um futuro em que o vinho pode continuar sendo protagonista — com ou sem álcool.
Fonte: O Globo







