O mercado global de chocolate vive uma fase amarga — e não estamos falando do teor de cacau. Os preços dessa commodity quadruplicaram nos últimos três anos e continuam pressionando tanto a indústria quanto o consumidor final. Para o setor de foodservice, que utiliza chocolate em sobremesas, bebidas e produtos sazonais, como ovos de Páscoa e bombons, o impacto já é sentido no bolso e na estratégia.
O que está por trás da alta?
O principal motivo da escalada nos preços é o desequilíbrio entre oferta e demanda, agravado por:
- Clima desfavorável e doenças em plantações da África Ocidental, especialmente na Costa do Marfim e em Gana, que juntos concentram cerca de 75% da produção mundial;
- Investimentos insuficientes nos últimos anos, comprometendo a produtividade;
- Atraso no repasse de preços, o que pressiona as margens das empresas;
- Efeitos da desvalorização cambial em países importadores, como o Brasil.
Hoje, a tonelada de cacau gira entre US$ 8 mil e US$ 9 mil, bem acima dos US$ 2,3 mil registrados em 2022. E, segundo analistas do J.P. Morgan, os preços devem continuar elevados ao longo de 2025, mesmo com a chegada de novas plantações em países como Equador e Brasil.
Reação da indústria: ajustes e porções menores
Diante dos custos crescentes, muitas empresas têm adotado duas estratégias principais:
- Redução de tamanho das porções, em vez de aumentos agressivos no preço final;
- Substituição parcial de ingredientes ou reformulação de produtos para manter a margem de lucro.
Segundo dados da Worldpanel by Numerator, no primeiro trimestre de 2025 o consumo de chocolate nos lares brasileiros caiu 19% em volume, mas apenas 10% em unidades — ou seja, o consumidor está optando por embalagens menores, sem abrir mão do consumo.
Páscoa impactada: queda de produção e aumento de preços
A Páscoa, data estratégica para o setor, foi duramente impactada:
- O preço médio dos chocolates subiu 18,9% em 2025 — o maior aumento em 13 anos, segundo a CNC;
- Houve uma queda de 22% na produção de ovos de Páscoa, comparada a 2024.
Ainda assim, o Brasil segue como um dos principais mercados consumidores de chocolate. Em 2024, 93% dos lares brasileiros compraram chocolate, segundo a Abicab — um crescimento em relação aos 85,5% registrados em 2020.
O que esperar para o futuro?
Especialistas apontam que os preços só devem começar a ceder a partir da Páscoa de 2026, e ainda assim, não devem retornar aos patamares anteriores à crise. A tendência é de um novo normal, com valores estabilizados em torno de US$ 6 mil por tonelada.
Para operadores do foodservice, vale monitorar de perto os preços e buscar alternativas criativas e estratégicas:
- Diversificar fornecedores, considerando o mercado nacional;
- Investir em produtos com maior valor agregado;
- Avaliar substituições parciais ou sazonais para manter margens saudáveis.
O cenário exige adaptação, mas também pode abrir espaço para inovação em cardápios, embalagens e experiências que mantenham o consumidor engajado — mesmo em tempos de alta no cacau.
Fonte: Exame







