A popularização dos medicamentos à base de GLP-1, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, já começou a redesenhar o consumo alimentar no Brasil — e o varejo sente os efeitos de forma concreta. No Assaí, as mudanças na cesta de compras vão além de ajustes pontuais e já influenciam decisões estratégicas de longo prazo, incluindo a aceleração da abertura de farmácias próprias.
Segundo Belmiro Gomes, CEO da companhia, a alteração no comportamento do consumidor impacta diretamente categorias tradicionais. Itens associados ao consumo por volume e à indulgência perdem espaço, enquanto proteínas, suplementos e produtos funcionais ganham relevância. “Há menos consumo de álcool e doces. Em contrapartida, cresce a demanda por proteína”, afirmou o executivo durante evento do UBS BB.
Um dos sinais mais claros dessa virada aparece no arroz. Apesar de ser historicamente visto como alimento básico, o produto já registra retração significativa de demanda. Em 2025, o preço acumulou queda de 26,56%, movimento que, segundo Gomes, está mais ligado à redução do consumo do que ao excesso de oferta. Dados da ScannTech reforçam essa leitura: o faturamento com arroz caiu 36% em novembro, indicando queda também nos volumes vendidos.
Na outra ponta, categorias alinhadas à nova lógica de alimentação apresentam forte crescimento. Suplementos voltados à prática esportiva registraram alta de 47% na receita, enquanto a carne bovina cresceu 11,6%. Frango e ovos também seguem em trajetória positiva, refletindo uma busca maior por saciedade e densidade nutricional.
Esse novo perfil de consumo ajudou a acelerar um projeto estratégico do Assaí: a implantação de farmácias próprias. A rede prevê inaugurar 25 unidades até julho, todas localizadas dentro dos complexos comerciais de suas lojas. A operação, segundo o CEO, permite custos de implantação menores e posiciona a empresa para capturar a demanda por medicamentos, vitaminas e suplementos — mesmo antes da eventual liberação legal para venda direta de remédios dentro da área de supermercados.
A transformação não se limita ao varejo. Fabricantes de alimentos também ajustam portfólios. Na M. Dias Branco, o avanço do GLP-1 impulsiona o desenvolvimento de produtos com maior teor de fibras e proteínas, sem abandonar categorias tradicionais. A estratégia passa por reformulação, aquisição de marcas saudáveis e leitura regional do consumo, reconhecendo que existem múltiplos perfis de consumidor no país.
O movimento indica algo maior do que uma tendência passageira. A adoção das canetas emagrecedoras inaugura uma mudança estrutural no consumo alimentar, pressionando varejo e indústria a repensarem sortimento, layout, categorias e novos negócios. Para quem opera em escala, antecipar esse comportamento deixou de ser vantagem competitiva — virou requisito de sobrevivência.
Fonte: investnews







