A escalada do conflito no Oriente Médio já começa a impactar diretamente uma das bases do sistema alimentar global: os fertilizantes. Com interrupções logísticas e aumento de custos, países correm para garantir insumos essenciais, enquanto cresce o risco de uma nova onda de pressão sobre os preços dos alimentos.
Segundo reportagem da Bloomberg Línea, governos ao redor do mundo estão se mobilizando para assegurar o abastecimento antes do plantio da primavera no hemisfério norte. O motivo é claro: a guerra tem afetado o fluxo de commodities estratégicas, especialmente após o fechamento do Estreito de Ormuz — um dos principais corredores logísticos do mundo.
A região é crucial para a produção de fertilizantes, já que concentra reservas minerais e gás natural, insumos indispensáveis para nutrientes usados em culturas como milho, trigo e arroz. Com a interrupção das rotas, os preços da ureia — principal fertilizante nitrogenado — dispararam, enquanto o fornecimento de fosfatos também começa a preocupar.
O impacto já é sentido em cadeia. China e Rússia, grandes exportadores, passaram a restringir vendas, enquanto países importadores enfrentam dificuldades para garantir suprimento. A Índia, maior compradora global de ureia, tem buscado alternativas emergenciais, enquanto na Europa governos ampliam subsídios agrícolas e, na África, programas de fertilizantes gratuitos começam a surgir.
O movimento é global — e competitivo. O Brasil, por exemplo, intensificou compras de países como Marrocos e nações do Golfo, além de avançar em projetos regionais para reduzir a dependência externa. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos flexibilizaram regras logísticas para facilitar a distribuição interna.
Mais do que um problema pontual, o cenário evidencia a forte conexão entre energia e alimentos. A produção de fertilizantes depende diretamente do gás natural, o que torna o setor altamente sensível a crises geopolíticas.
Outro ponto de atenção é o efeito inflacionário. Mesmo com a desaceleração recente dos preços agrícolas após choques como pandemia e guerra na Ucrânia, o aumento dos custos dos insumos pode reverter essa tendência — pressionando novamente o bolso do consumidor.
Especialistas alertam que o momento atual pode ser ainda mais delicado do que crises recentes. Diferente de 2022, quando fluxos foram redirecionados, o bloqueio no Estreito de Ormuz cria um gargalo físico difícil de contornar rapidamente.
Para países mais ricos, a saída passa por subsídios e políticas de proteção ao agricultor. Já para economias mais vulneráveis, especialmente na África Subsaariana e no sul da Ásia, o cenário é mais crítico, com risco direto de agravamento da fome.
No centro desse tabuleiro, a China desponta como um dos poucos players com capacidade de proteger seu abastecimento interno e, ao mesmo tempo, influenciar o mercado global, graças ao controle sobre sua produção e exportações.
Se o conflito se prolongar, o impacto tende a se aprofundar. A combinação de custos elevados, escassez de insumos e margens agrícolas pressionadas pode desencadear um novo ciclo de alta nos alimentos — com efeitos que vão muito além do campo.
Conteúdo adaptado de Bloomberg Línea







