Quando se fala em parcerias estratégicas no mercado global de chocolate, poucas têm o peso de um acordo com a Barry Callebaut. A empresa suíça, maior fornecedora de chocolate do mundo e parceira de marcas como Nestlé, Unilever, Hershey’s, Mondelēz International e Mars, vive hoje um dos momentos mais desafiadores de sua história.
No ano fiscal encerrado em agosto, a companhia registrou queda de quase 7% no volume de vendas, apesar de um crescimento de 49% na receita. O principal fator por trás desse movimento é a crise climática, que vem reduzindo drasticamente a oferta global de cacau e pressionando os preços a patamares históricos.
Diante desse cenário, a Barry Callebaut passou a buscar alternativas ao cacau — estratégia que resultou na maior parceria firmada nos cinco anos de existência da foodtech alemã Planet A Foods.
A startup desenvolveu um ingrediente com características sensoriais semelhantes ao chocolate, produzido a partir da fermentação de matérias-primas vegetais. Batizado de ChoViva, o produto já está presente em cerca de 110 itens comercializados em 10 países da Europa e da Ásia, segundo o cofundador e CEO, Maximilian Marquart.
“Não fabricamos o produto final, o que dificulta mensurar exatamente quantas lojas vendem itens com ChoViva. Ainda assim, estimamos que ele esteja disponível em mais de 100 mil pontos de venda no mundo”, afirma o executivo.
Esse alcance posiciona a Planet A Foods como um dos principais nomes em um segmento que cresce rapidamente: o de chocolates sem cacau. Um mercado que já reúne empresas como Voyage Foods, Foreverland, Win-Win e Prefer — e que ganha relevância à medida que os desafios climáticos se intensificam. O próximo passo da startup é a expansão internacional, com foco nos Estados Unidos.
Embora não divulgue números de faturamento, Maximilian destaca que a demanda segue forte. “Nosso principal desafio agora é escalar: aumentar a capacidade produtiva mantendo consistência e qualidade em volumes maiores.”
Por que a indústria do chocolate busca alternativas ao cacau
A formulação atual do ChoViva utiliza sementes de girassol e de uva, que passam por um processo próprio de fermentação e torra. O resultado são aromas, sabores e texturas que remetem ao cacau. Esses elementos são combinados com gorduras vegetais e açúcar, formando uma massa que pode substituir o chocolate tradicional na proporção de 1 para 1.
“O ChoViva existe em quatro versões: vegana, ao leite, meio amargo e branca”, explica a cofundadora e CTO, Sara Marquart. “Ele pode ser usado como cobertura, em cookies ou até em barras inteiras. Dependendo do produto, pode representar desde uma pequena fração até 100% da formulação.”
Segundo Sara, nos últimos meses houve um crescimento expressivo no lançamento de barras feitas com ChoViva na Alemanha, Holanda e França, por meio de diferentes parceiros.
Hoje, o ingrediente já está presente em produtos de marcas e empresas como Lindt, Piasten, Aeon, Peter Kölln, Lufthansa, Deutsche Bahn, Kaufland, Rewe, Aldi e Lidl.
A expansão acontece em paralelo a um dos períodos mais críticos já enfrentados pela indústria do chocolate. Pesquisadores alertam que até um terço dos cacaueiros do mundo pode desaparecer até 2050. Eventos climáticos extremos reduziram os estoques globais aos níveis mais baixos da última década, elevando os preços a recordes históricos.
Costa do Marfim e Gana, responsáveis pela maior parte da produção mundial de cacau, enfrentam perdas severas causadas por doenças nas plantações e mudanças climáticas. Desde 1960, esses países já perderam mais de 85% de sua cobertura florestal.
O paradoxo é que o próprio setor contribui de forma significativa para a crise ambiental. A produção de chocolate está entre as mais intensivas em emissões de gases de efeito estufa no sistema alimentar, ficando atrás apenas da carne bovina, além de estar fortemente associada ao desmatamento. Uma única barra de chocolate consome, em média, cerca de 1.700 litros de água.
Nesse contexto, a Planet A Foods aponta ganhos ambientais relevantes: o uso do ChoViva pode reduzir as emissões entre 82% e 91%, dependendo da formulação.
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