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Cantinas escolares reguladas e consumo de ultraprocessados

Um estudo conduzido por pesquisadoras do Nupens/USP aponta que regulamentações sobre a venda de alimentos em cantinas escolares podem contribuir para a redução do consumo de ultraprocessados entre adolescentes. Publicado em 27 de janeiro na revista Cadernos de Saúde Pública, o trabalho analisou dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2019.

A pesquisa avaliou informações de mais de 81 mil estudantes, matriculados em 1.804 escolas de todas as regiões do país. É o primeiro estudo a investigar, em âmbito nacional, a associação entre normas que regulam a comercialização de alimentos nas escolas e o padrão de consumo alimentar dos estudantes brasileiros.

O ponto de partida foi o entendimento de que a escola é um dos principais ambientes de formação de hábitos alimentares, já que os adolescentes passam boa parte do dia nesse espaço e realizam ali uma parcela relevante das refeições. No caso das escolas públicas, o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) garante pelo menos duas refeições diárias, com prioridade para alimentos in natura ou minimamente processados.

A análise foi dividida em duas etapas. Na primeira, as pesquisadoras compararam capitais com e sem regulamentação sobre a venda de alimentos e bebidas nas escolas, observando a relação com o consumo de ultraprocessados. Na segunda, o foco recaiu sobre escolas que possuem cantinas, examinando se a presença desses produtos nos pontos de venda estava associada ao consumo pelos alunos.

Os resultados indicam que estudantes de escolas localizadas em capitais com normas específicas para a venda de alimentos tendem a consumir menos ultraprocessados. Em contrapartida, a disponibilidade desses produtos nas cantinas esteve relacionada a um maior consumo.

O estudo também destaca diferenças entre redes públicas e privadas. Alunos de escolas públicas estariam mais protegidos da exposição a ultraprocessados no ambiente escolar, tanto pelas diretrizes do PNAE quanto pelo fato de que 64,6% dessas escolas não possuem cantinas. Além disso, em alguns locais, as próprias normas regulam ou restringem o funcionamento dessas estruturas.

Segundo as autoras, a presença de cantinas pode favorecer a substituição de refeições baseadas em alimentos in natura por opções ultraprocessadas, reforçando a importância de regras claras sobre o que pode ser comercializado nesses espaços.

Os achados reforçam o papel de políticas públicas e marcos regulatórios na promoção de uma alimentação adequada e saudável no ambiente escolar. No entanto, a existência de legislações distintas em cada capital pode gerar desigualdades, já que os critérios e os tipos de alimentos regulados variam.

Para as pesquisadoras, uma política nacional que padronize a restrição da venda de ultraprocessados em cantinas escolares poderia ampliar o alcance da medida e fortalecer seu impacto na saúde de crianças e adolescentes.

Para conhecer

Título: Influência do ambiente alimentar e regulatório no consumo de alimentos ultraprocessados por adolescentes: uma análise multinível nas capitais brasileiras com base na Pesquisa Nacional de Saúde Escolar, 2019
Revista: Cadernos de Saúde Pública
Autoria: Laura Luciano Scaciota; Mayra Barata Figueiredo; Maria Alvim Leite; Giovanna Calixto Andrade; Luiza Antoniazzi Gomes de Gouveia; Catarina Machado Azeredo; Maria Laura da Costa Louzada; Fernanda Rauber; Renata Bertazzi Levy
Link de acesso: disponível no site da revista

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