O avanço do uso de medicamentos à base de GLP-1 — como Ozempic, Wegovy e Mounjaro — está começando a mudar o comportamento alimentar dos consumidores. A tendência, segundo especialistas, é que essas transformações cheguem também às gôndolas dos supermercados, afetando o sortimento e a gestão de categorias.
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Comer para viver melhor
“Esses medicamentos aceleram uma tendência já em curso: a busca por qualidade de vida. O alimento deixa de ser apenas fonte de prazer imediato e passa a ser visto como ferramenta de autocuidado e performance”, explica Fátima Merlin, CEO da Connect Shopper.
Entre os efeitos mais observados estão:
- Redução da ingestão calórica e do consumo de ultraprocessados;
- Escolhas mais conscientes, voltadas ao valor nutricional e à saciedade;
- Maior planejamento alimentar e menos compras por impulso.
“É um movimento menos sobre dietas e mais sobre nutrir o corpo com propósito”, completa Merlin. Essa mudança reposiciona o varejo alimentar como curador de bem-estar e longevidade, e não apenas um distribuidor de produtos.
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Impactos ainda pequenos, mas crescentes
Para Fernando Faro, fundador da Varejo 360, os efeitos diretos ainda são limitados, mas tendem a crescer conforme o acesso aos medicamentos se expande. “Esses medicamentos promovem saciedade com pequenas porções. O reflexo natural é a redução no volume de compra”, explica.
Hoje, cerca de 0,5% da população brasileira usa medicamentos à base de GLP-1, concentrados nas classes A e B e com maior presença entre mulheres. Mesmo assim, já há sinais de mudança:
- Estudo da Cornell University mostra redução de 10% em chips e 8% em doces de padaria entre famílias com usuários de Ozempic;
- Levantamento da Morgan Stanley aponta que 60% dos consumidores diminuíram ou eliminaram doces e sorvetes da rotina.
No Brasil, biscoitos e snacks tendem a ser impactados de forma desigual. “Biscoitos caíram cerca de 1%, mas salgadinhos tipo tortilha tiveram queda de 13%. Já embalagens pequenas e práticas continuam no carrinho como pequenas indulgências”, observa Faro.
As bebidas alcoólicas, especialmente cerveja, devem sofrer retração maior, enquanto proteínas brancas, frutas, vegetais e alimentos minimamente processados ganham espaço.
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Como o varejo pode se adaptar
Para acompanhar esse novo consumidor, Fátima Merlin recomenda um olhar analítico sobre o mix e o planograma das lojas:
- Revisar continuamente o sortimento, com foco em missões de compra como “saúde e performance” ou “bem-estar”;
- Reduzir o espaço de categorias indulgentes e ampliar o de produtos funcionais;
- Agrupar itens por benefício percebido (“energia”, “saciedade”, “proteína”);
- Explorar cross-merchandising, combinando suplementos, águas funcionais e snacks proteicos.
Ela destaca também a importância da análise de dados de venda, pesquisas com consumidores e testes de layout para ajustar o sortimento de forma ágil. “Explorar produtores locais e investir em marca própria voltada a saúde e bem-estar pode ser um diferencial competitivo importante”, reforça.
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Tendência estrutural, não passageira
Tanto Merlin quanto Faro alertam: o fenômeno não é modismo. “Ignorar esse movimento seria um erro”, afirma Faro. “Nos EUA, ele já está transformando indústrias inteiras. O desafio da obesidade é estrutural e tende a manter essa demanda por longo tempo.”
Com a previsão de produção de 20 milhões de canetas emagrecedoras no Brasil em 2026, o efeito deve se intensificar. “A mudança será silenciosa, mas consistente. O importante é observar as categorias, entender o ritmo das transformações e se adaptar desde já”, conclui.
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Conteúdo originalmente publicado pelo portal SA Mais Varejo







