Em uma recente matéria do Valor Econômico, fomos apresentados à história de Ângela Marques da Silva, uma mãe solo de Paraisópolis, que ilustra como o desperdício de alimentos afeta vidas. Desde que ficou desempregada, Ângela recebe mensalmente doações de alimentos que, em vez de serem descartados, são redistribuídos para quem realmente precisa. Essa transformação é possível graças ao projeto “Unidos pela Comida”, patrocinado pela marca de maionese Hellmann’s, da Unilever.
Criado durante a pandemia de covid-19, o programa nasceu da mobilização de funcionários da Unilever que se uniram para ajudar as pessoas mais vulneráveis. A startup Infineat, uma “filantech” que conecta supermercados a ONGs, é responsável por garantir que os alimentos excedentes cheguem até pessoas como Ângela. A organização Ação Gueto, por exemplo, utiliza um aplicativo para identificar e redistribuir o que poderia ser desperdiçado.
O que se observa em Paraisópolis é um reflexo de um problema mais amplo: no Brasil, cerca de um terço da comida produzida é perdida ou desperdiçada. Dados do IBGE e do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) revelam que entre 23 e 82 milhões de toneladas de alimentos são jogados fora anualmente. Em um país onde 8,4 milhões de pessoas ainda passam fome, esse desperdício representa uma tragédia social e ambiental.
A cultura do desperdício, infelizmente, ainda é aceita tanto entre produtores quanto consumidores. Embora haja iniciativas como o “Fome de Tudo” e o “Comida Invisível” que buscam mitigar esse problema, a realidade é que a maioria das pessoas ainda não tem consciência do impacto do desperdício alimentar. A falta de clareza nas legislações também contribui para que muitos estabelecimentos hesitem em doar alimentos.
Carolina Riotto, da Unilever, destaca que, apesar do marco legal estabelecido pela lei 14.016, que facilita a doação de excedentes alimentares, ainda há muito a ser feito. A falta de comunicação e clareza sobre as normas dificulta a ação de supermercados e ONGs. Sugestões como a criação de benefícios fiscais para incentivar doações são discutidas, mas especialistas alertam que a priorização de ações diretas e a educação sobre a importância da redução do desperdício são essenciais.
Enquanto o governo busca desenvolver novas políticas para combater o desperdício, como a criação de um decreto que organize essas iniciativas, a discussão sobre regulamentações para aplicativos de doação de alimentos avança lentamente. Carmen Priscila Bocchi, do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, aponta que é necessário entender melhor como essas plataformas funcionam para garantir a segurança alimentar.
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A luta contra o desperdício de alimentos é uma questão que envolve não apenas a redistribuição, mas também a mudança de mentalidade. Como observa Jorge Meza, da FAO, cada quilo de alimento jogado fora poderia alimentar aqueles que estão em situação de vulnerabilidade. Iniciativas como “Unidos pela Comida” são passos importantes, mas é fundamental que a sociedade como um todo se mobilize para criar uma cultura de responsabilidade e solidariedade em torno do consumo.
O desperdício alimentar é um problema que afeta a todos nós, e a transformação começa com pequenas ações, desde a conscientização sobre nossas escolhas até o apoio a projetos que promovem a redistribuição de alimentos. É hora de unirmos forças para construir um futuro onde cada refeição conte, e cada alimento tenha um destino digno.
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