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O futuro das exportações passa pela preservação da Amazônia

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A relação entre Brasil e China tem se tornado cada vez mais estratégica quando o assunto é segurança alimentar. A China, com uma população em crescimento e em transformação nutricional, depende de fontes confiáveis de carne e soja. O Brasil, por sua vez, ocupa hoje o papel de principal fornecedor desses produtos ao mercado chinês.

Esse laço comercial tem promovido ganhos econômicos importantes, ampliado a interdependência produtiva entre os dois países e impulsionado investimentos em infraestrutura e logística. Mas há um fator silencioso que sustenta essa engrenagem: a floresta amazônica.

Sem a floresta, não há chuvas suficientes para manter a produtividade agrícola no Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país. Pesquisas do INPE, Embrapa e IPAM mostram que o desmatamento já afeta a regularidade dos chamados “rios voadores” — os fluxos de umidade que partem da Amazônia e mantêm o regime climático nas regiões produtoras. Entre 1980 e 2019, cerca de 28% das áreas agrícolas deixaram de contar com um clima ideal. E a projeção até 2060 é alarmante: até 74% dessas áreas podem se tornar inviáveis para a agricultura de sequeiro.

O motor do desmatamento ainda é a pecuária extensiva, de baixa produtividade e baseada na abertura de novas áreas — muitas vezes griladas. Estima-se que 92% da área desmatada virou pasto, com menos de um boi por hectare. Isso representa desperdício de terras e aumento de risco comercial. A boa notícia: há alternativas. Estudos do projeto Amazônia 2030 e do Radar Verde indicam que é possível dobrar a produção de carne apenas com a recuperação de pastagens degradadas, sem a necessidade de novos desmatamentos.

A pressão internacional também começa a aparecer. Em 2023, o Radar Verde analisou 64 frigoríficos autorizados a exportar para a China. O resultado preocupou: 84% tinham controle “baixo” ou “muito baixo” sobre o risco de desmatamento em suas cadeias. O problema é ainda mais grave entre os fornecedores indiretos, onde o desmatamento costuma ocorrer. Esse cenário pode virar um entrave reputacional — e comercial.

A China já dá sinais de atenção. A China Meat Association publicou diretrizes para um comércio verde de carnes, com foco em critérios de sustentabilidade e rastreabilidade. Ainda não são regras obrigatórias, mas a sinalização está dada. O Brasil, se quiser preservar seu protagonismo nesse mercado, precisa se antecipar.

Há outro desafio no horizonte: a infraestrutura. Os corredores logísticos que conectam soja, milho e carne ao mercado chinês passam por regiões sensíveis da Amazônia. Sem planejamento, esses projetos podem abrir novas frentes de desmatamento, agravar conflitos sociais e comprometer a própria base climática da agricultura brasileira.

É nesse ponto que políticas públicas com critérios socioambientais se tornam decisivas. Planejar a infraestrutura com base em dados — mapeando fluxos, comparando rotas, avaliando impactos e ouvindo as comunidades envolvidas — é tão estratégico quanto garantir acesso a mercados.

Conservar a Amazônia deixou de ser apenas um compromisso ambiental. É, cada vez mais, uma condição econômica e geopolítica para o futuro do agronegócio brasileiro.



Fonte: Exame

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