Às vésperas da COP30, o Brasil se prepara para apresentar seu Plano Clima — um conjunto de ações voltadas à mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Mas um novo estudo do Instituto Talanoa acende um alerta: o país pode, na verdade, ver um aumento de até 14% nas emissões de gases de efeito estufa até 2035.
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Energia e combustíveis fósseis ainda dominam
Segundo o levantamento, o Plano Clima não inclui metas claras para afastamento dos combustíveis fósseis e, ao contrário, prevê redução da participação de fontes renováveis na matriz elétrica. Hoje, 88,2% da energia elétrica brasileira é considerada limpa — número que pode cair para 82,7% em 2030.
Mesmo com o avanço de fontes como solar e eólica, petróleo, gás natural e carvão ainda representam quase metade da oferta interna de energia. Setores como energia, indústria e transportes podem elevar suas emissões em até 44%, 34% e 16%, respectivamente, até 2035.
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Agricultura e desmatamento: onde o país aposta
A agropecuária continua sendo um dos principais emissores de gases do efeito estufa, respondendo por mais de 30% das emissões nacionais — sem considerar o desmatamento.
Apesar disso, o estudo mostra que o Plano Clima não prevê medidas específicas para reduzir o metano proveniente da fermentação entérica (o processo digestivo dos bovinos). O gás é responsável por cerca de 65% das emissões do setor.
Os recursos destinados à agricultura de baixa emissão de carbono seguem limitados: o Programa RenovAgro representou apenas 8% dos investimentos totais do Plano Safra 2025-2026. A principal aposta do governo continua sendo o combate ao desmatamento e a restauração florestal, que poderiam capturar mais de 1 bilhão de toneladas de CO₂ equivalente até 2035.
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Custo da inação e desafios para adaptação
O Instituto Talanoa calcula que o “custo da inação climática” pode chegar a R$ 17 trilhões no PIB brasileiro caso o aquecimento global ultrapasse 4°C.
Nos últimos dez anos, mais de 113 milhões de pessoas no país foram impactadas por eventos climáticos extremos, com prejuízos superiores a R$ 455 bilhões.
Especialistas apontam que, embora o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) seja uma fonte importante de recursos para adaptação, parte significativa dos investimentos ainda vai para setores que agravam a crise climática, como petróleo e gás. Apenas 18% do valor destinado ao PAC entre 2023 e 2026 será aplicado em iniciativas como saneamento, mobilidade urbana e gestão de resíduos.
“Para reduzir emissões e promover adaptação, é urgente alinhar o gasto público ao desafio climático”, afirma Marta Salomon, do Instituto Talanoa.
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E o impacto para o foodservice?
Com um cenário de incertezas na transição energética e nos incentivos à agropecuária de baixo carbono, a cadeia do foodservice precisa se preparar para novos custos e exigências ambientais. Questões como rastreabilidade, gestão de resíduos e eficiência energética tendem a ganhar ainda mais peso nas políticas públicas e nas decisões de consumo.
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Conteúdo originalmente publicado pela Exame







