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Foodtechs ganham espaço com crise alimentar nos EUA

A insegurança alimentar nos Estados Unidos e o aumento do desperdício de alimentos estão criando um novo cenário de oportunidades para o setor de foodtechs. A crise, marcada por incertezas em torno do programa federal SNAP (o principal sistema de assistência nutricional do país), ameaça milhões de famílias e expõe um paradoxo: enquanto parte da população teme passar fome, o país desperdiça cerca de US$ 400 bilhões em alimentos por ano.

De acordo com a organização ReFED, que atua no combate ao desperdício alimentar, os excedentes de produção somaram US$ 382 bilhões em 2023, e o número deve crescer em 2025. Esse cenário tem estimulado startups e empresas privadas a transformar o problema em um mercado em expansão, conectando inovação, sustentabilidade e impacto social.

Startups transformam excedente em oportunidade

Uma das empresas que vêm ganhando destaque é a Too Good to Go, plataforma que conecta estabelecimentos com alimentos excedentes a consumidores dispostos a comprá-los com desconto. A operação já está presente em 70 cidades norte-americanas.

Quarenta por cento de todos os alimentos no mundo acabam no lixo”, destacou Chris MacAulay, diretor da Too Good to Go na América do Norte, em entrevista à CNBC. Segundo ele, a empresa salva cerca de oito refeições por segundo, oferecendo “sacolas surpresa” com produtos que seriam descartados.

Enquanto bancos alimentares lutam para atender famílias afetadas pelo impasse do SNAP, negócios como o da Too Good to Go criam um novo ecossistema de consumo consciente, reduzindo perdas e democratizando o acesso a alimentos de qualidade.

Inovação e tecnologia aceleram o setor

O mercado global de foodtechs movimenta US$ 229 bilhões por ano, com projeções de atingir US$ 538 bilhões até 2034, segundo a consultoria Towards Food and Beverages. O crescimento é impulsionado por novas tecnologias, mudança nos hábitos de consumo e incentivos econômicos.

Empresas como a Mill receberam aportes de US$ 100 milhões para desenvolver dispositivos domésticos que desidratam restos de comida, enquanto a Metafoodx levantou US$ 9,4 milhões para criar um scanner de IA que rastreia o desperdício em cozinhas industriais.

O empreendedor Tyler Frank, fundador da Garbage to Garden, também surfou essa onda: começou com US$ 300 e um caminhão em 2012, oferecendo coleta de resíduos orgânicos para compostagem em Portland, no Maine. Hoje, sua empresa é referência em economia circular e compostagem urbana.

Digitalização e rentabilidade sustentável

A digitalização tem sido outro motor de crescimento. “As companhias que investem em tecnologia são as que estão vencendo”, afirma Buddy Bockweg, CEO da Vsimple, startup que automatiza operações e reduz custos de gestão de resíduos.

Para investidores, o setor representa uma oportunidade de retorno previsível e escalável, antes restrita à gestão tradicional de resíduos. “Esse segmento está subvalorizado há muito tempo”, afirmou Effram Kaplan, da Brown Gibbons Lang & Company.

O paradoxo entre escassez e abundância

Enquanto milhões de americanos enfrentam incertezas sobre o acesso à alimentação, o país lida com uma abundância desperdiçada. O cenário evidencia a necessidade de políticas públicas mais ágeis — e, ao mesmo tempo, revela um terreno fértil para negócios que unem propósito, tecnologia e impacto social.

As foodtechs mostram que inovação e empatia podem caminhar lado a lado: o que antes era desperdício, hoje se transforma em oportunidade, economia e sustentabilidade.

Fonte: exame

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