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Proteína de inseto avança no Brasil, mas regulação ainda limita consumo humano

Insetos entram na estratégia global para ampliar a oferta de proteína diante do aumento da demanda por alimentos. Entenda o cenário no Brasil, os entraves regulatórios e o potencial de mercado.

O uso de insetos na alimentação humana tem ganhado espaço no debate sobre segurança alimentar e sustentabilidade. A chamada entomofagia é comum em países da África e da Ásia, mas ainda enfrenta resistência cultural no Brasil. Mesmo assim, o interesse pelo tema cresce à medida que o mundo busca fontes alternativas de proteína com menor impacto ambiental.

Além do perfil nutricional relevante, a produção de proteína de inseto costuma exigir menos recursos naturais quando comparada a fontes tradicionais. O tema já mobiliza empresas brasileiras. A Insect Protein, com operação no Rio Grande do Sul, estruturou sua produção para atender também ao consumo humano. No entanto, sem a liberação específica da Anvisa, hoje a produção é direcionada à alimentação animal, especialmente para gado e pets.

O argumento de eficiência produtiva é um dos que mais chamam atenção. Mauro Ávila, CEO da empresa, compara: para produzir 1 kg de whey protein são necessários cerca de 200 litros de soro de leite. Já para obter 1 kg de proteína a partir da larva do tenébrio, são necessários aproximadamente 3 kg do inseto. A diferença no uso de insumos é um dos pontos que sustentam o interesse de investidores e empreendedores.

O mercado global também reforça essa perspectiva. Relatório da consultoria Meticulous Research (abril de 2024) projeta que o mercado de insetos comestíveis pode alcançar US$ 17,9 bilhões até 2033. Segundo estimativas da FAO, cerca de 2 bilhões de pessoas já consomem insetos regularmente no mundo.

Regulação: o ponto-chave para o avanço no Brasil

Para que o Brasil se consolide nesse mercado, a atualização regulatória é considerada essencial. A RDC 839/2023, da Anvisa, que trata de novos alimentos e novos ingredientes, abre caminho para que ingredientes à base de insetos sejam avaliados e validados legalmente. Segundo especialistas da área regulatória, o marco cria oportunidades para startups e indústrias investirem no desenvolvimento de produtos. Ainda assim, a comercialização para consumo humano depende de autorizações específicas.

O debate não é unânime. Há questionamentos sobre eficiência energética, aceitação sensorial e viabilidade econômica. Entre as ponderações levantadas por especialistas do setor está a dificuldade de desenvolvimento de produtos com sabor e textura atrativos, além da discussão sobre a relação entre a energia consumida na criação dos insetos e a proteína efetivamente gerada.

Com o aumento populacional, a pressão sobre sistemas alimentares e os impactos das mudanças climáticas, a busca por novas fontes de proteína tende a ganhar relevância estratégica — inclusive no Brasil. A proteína de inseto se insere nesse contexto como uma alternativa em avaliação, que combina inovação, desafios regulatórios e disputa por aceitação do consumidor.

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