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Inflação dos alimentos pressiona consumo e aumenta inadimplência

Fernanda Frazão - Agência Brasil

A alta recente dos preços de alimentos e transportes voltou a pressionar o orçamento das famílias brasileiras — e esse movimento acende um sinal de alerta que vai além do consumo: ele impacta diretamente a capacidade de pagamento e o nível de endividamento no país.

Dados do IPCA de março mostram que itens essenciais continuam pesando mais no bolso, especialmente entre as famílias de menor renda. Segundo a Fundação Getulio Vargas, quem ganha até 1,5 salário mínimo já destina cerca de 22% do orçamento à alimentação — proporção três vezes maior do que a observada nas faixas de renda mais altas. Quando se soma o gasto com transporte, que pode chegar a até 20% da renda em algumas regiões, o espaço para outras despesas — incluindo o pagamento de dívidas — fica ainda mais restrito.

Esse cenário ajuda a explicar a deterioração das condições de crédito ao longo de 2025. Mesmo com algum avanço na renda média, o aumento dos custos básicos reduz a margem financeira das famílias, comprometendo sua capacidade de honrar compromissos. Hoje, cerca de 29,3% da renda familiar está comprometida com dívidas, sendo que uma parte relevante — aproximadamente 11 pontos percentuais — corresponde apenas ao pagamento de juros.

Para o foodservice, esse contexto traz implicações diretas. A pressão sobre itens básicos, como alimentação no domicílio, tende a reconfigurar o comportamento de consumo fora de casa, com maior sensibilidade a preços, busca por valor percebido e redução de frequência em determinados momentos.

Outro ponto relevante é que a inflação de alimentos segue acima do índice geral há algum tempo. Desde 2023, enquanto o IPCA acumulou alta de 41,8%, os alimentos consumidos em casa subiram 61,7%. Ou seja, justamente os itens mais essenciais ficaram proporcionalmente mais caros, agravando o desequilíbrio no orçamento.

Medidas como o programa Desenrola trouxeram algum alívio temporário ao permitir a renegociação de dívidas. No entanto, com a manutenção de juros elevados e sem uma reestruturação financeira mais consistente, muitas famílias voltaram a se endividar — frequentemente em condições mais caras. Em paralelo, o crédito ficou mais restrito, empurrando consumidores para linhas mais onerosas, como cheque especial e rotativo do cartão.

O resultado é um ciclo difícil de romper: maior comprometimento da renda, piora na classificação de crédito e acesso mais limitado a novas linhas de financiamento. Esse movimento já aparece também nos indicadores de inadimplência, que cresceram tanto no crédito livre quanto no direcionado — este último tradicionalmente mais estável.


Conteúdo publicado pela CNN e adaptado para o portal Foodbiz

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