Um novo relatório global da Comissão EAT-Lancet reacendeu o debate sobre como o que comemos afeta tanto o planeta quanto a nossa saúde. A principal mensagem segue a mesma: reduzir o consumo de carne e aumentar o de alimentos de origem vegetal é essencial — especialmente nos países ricos.
Com base em dados de mais de 30 países, o relatório aponta que essa mudança poderia evitar até 15 milhões de mortes prematuras por ano e reduzir em 15% as emissões de gases de efeito estufa provenientes da agricultura. O documento, batizado de EAT-Lancet 2.0, reúne especialistas de diversas áreas — de nutrição a economia e clima — e foi apoiado por instituições como as fundações Rockefeller e Novo Nordisk.
“Ao melhorar as dietas, também melhoramos o meio ambiente”, afirmou Walter Willett, professor da Universidade Harvard e copresidente da comissão.
O estudo lembra que os sistemas alimentares são responsáveis por cerca de um terço das emissões globais, e que a pecuária exerce grande pressão sobre o uso da terra e da água. Mesmo que o mundo abandone os combustíveis fósseis, a produção de alimentos ainda pode fazer o aquecimento global ultrapassar o limite de 1,5°C.

A responsabilidade, porém, não é igualmente distribuída: os 30% mais ricos da população respondem por mais de 70% da pressão ambiental ligada à alimentação. Para reverter esse cenário, a comissão reforça a ideia da chamada “dieta da saúde planetária”, semelhante à dieta mediterrânea: mais frutas, verduras, leguminosas e castanhas — e menos carnes vermelhas e laticínios.
A proposta não é eliminar completamente os produtos de origem animal, mas incentivar o consumo equilibrado, com porções moderadas. Segundo o relatório, o princípio “1+1” — uma porção de laticínios e uma de proteína animal por dia — é uma boa referência. A meta é respeitar as diferenças culturais e garantir que cada região adapte as recomendações à sua realidade alimentar.
Outro ponto importante é a desigualdade global no acesso à alimentação saudável: quase metade da população mundial ainda não tem acesso a dietas nutritivas e acessíveis. Assim, enquanto o Norte Global precisa reduzir o consumo de carne, partes do Sul Global ainda necessitam aumentar a ingestão de proteína animal para combater a desnutrição.
Apesar do impacto das recomendações, o relatório reconhece que mudar hábitos alimentares não é simples. É preciso investir em políticas públicas, incentivos econômicos e educação alimentar, além de reduzir o desperdício e melhorar a produtividade agrícola.

A primeira versão do estudo, lançada em 2019, inspirou cidades como Milão, Londres e Tóquio a repensarem seus programas de alimentação pública. Agora, com a atualização de 2025, a comissão planeja levar o debate adiante — promovendo diálogos com agricultores, chefs, consumidores e profissionais de saúde em diferentes países.
“Estamos reunindo todos os atores-chave à mesa para ter conversas francas — e realmente tentar mudar mentalidades”, afirmou Gunhild Stordalen, cofundadora da EAT Foundation.
O novo relatório reforça um ponto central: alimentar bem é também cuidar do planeta. Reduzir o desperdício, valorizar alimentos locais e apostar em dietas mais vegetais são passos concretos para um futuro sustentável — na mesa e fora dela.
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Fonte: Bloomberg Línea







