No Dia Mundial Sem Carne, o debate sobre alimentação ganha força. Sustentabilidade, saúde e novas escolhas alimentares estão cada vez mais presentes no discurso do consumidor.
Mas quando olhamos para o comportamento real dentro do foodservice, o cenário é mais complexo.
Dados do CREST/IFB ajudam a entender como a categoria de pratos vegetarianos e sem carne está performando no Brasil — e o que isso revela sobre o momento atual do mercado.
O tamanho da categoria e sua recente desaceleração
Nos últimos 12 meses (YE Dez/25), o consumo de pratos vegetarianos e sem carne movimentou R$ 49,5 bilhões no foodservice brasileiro.
Apesar da relevância, a categoria apresentou retração:
- queda de 5% em relação a 2024
- queda de 20% em comparação com o período pré-pandemia (2019)
Ou seja, mesmo com o aumento do interesse por alimentação consciente, o consumo fora de casa ainda não recuperou o nível de antes da pandemia.
Menos pedidos e menor frequência
Além da queda em valor, o volume também recuou.
Foram aproximadamente 1,9 bilhões de pedidos no período analisado, com:
- 8% vs 2024
- 41% vs 2019
Esse movimento indica uma redução na frequência de consumo. O consumidor não abandonou totalmente a categoria, mas passou a escolhê-la menos vezes.
Um consumo ainda muito ligado à rotina
Quando analisamos as ocasiões, o padrão reforça esse comportamento:
- 54% do consumo acontece no almoço
- 24% no período noturno
O almoço segue como principal momento, especialmente por estar associado a escolhas práticas e do dia a dia. Ainda assim, a participação relevante do jantar mostra que há espaço para expansão em outras ocasiões.
Quem está puxando esse consumo
O perfil do consumidor também traz insights importantes.
Pessoas com mais de 25 anos representam mais de 75% dos pedidos, indicando que o consumo ainda não é liderado por públicos mais jovens dentro do foodservice.
Isso sugere uma oportunidade para o setor desenvolver ofertas mais aderentes a novas gerações, que já demonstram interesse pelo tema, mas ainda não necessariamente convertem esse interesse em consumo fora de casa.
Onde esse consumo acontece
Outro ponto relevante é o tipo de estabelecimento onde esses pedidos são feitos:
- cerca de 20% em operações de baixo ticket (Low Check)
- aproximadamente 15% em restaurantes por quilo
A categoria ainda está fortemente associada a formatos acessíveis e de conveniência, reforçando seu papel dentro da rotina, e não como uma escolha aspiracional ou de experiência.
Um movimento que não é só do Brasil
O comportamento observado no Brasil não é isolado.
Globalmente, o mercado plant-based continua crescendo em valor, especialmente impulsionado pelo varejo e pela indústria. Segundo a Data Bridge Market Research, o setor pode alcançar US$ 176 bilhões até 2032. Já a Grand View Research aponta que o mercado vegano deve mais que dobrar até 2033.
Ao mesmo tempo, o foodservice enfrenta uma desaceleração semelhante à observada no Brasil. Nos Estados Unidos, por exemplo, vendas de carnes vegetais caíram recentemente, enquanto no Reino Unido restaurantes vêm reduzindo opções vegetarianas ou ajustando seus cardápios.
Esse cenário mostra que o crescimento do interesse não está se traduzindo automaticamente em consumo fora de casa.
O principal desafio: preço e percepção de valor
Entre os fatores que explicam esse descompasso, o preço aparece como um dos principais.
Em diferentes mercados, produtos plant-based ainda são percebidos como mais caros. Estudos da ProVeg indicam que estratégias de precificação têm impacto direto na adoção dessas opções.
Quando o preço se ajusta, o consumo tende a reagir rapidamente. Por outro lado, isso pode afetar o volume total e a rentabilidade dos estabelecimentos, criando um equilíbrio delicado para o operador.
Além do preço, questões como sabor, percepção de processamento e posicionamento dos pratos também influenciam a decisão do consumidor.
Oportunidade para o foodservice
O que os dados mostram é um cenário de transição.
Existe interesse, existe demanda potencial, mas ainda há um gap entre intenção e consumo real.
Para o foodservice, isso abre espaço para evoluir em diferentes frentes:
- desenvolvimento de propostas mais atrativas e desejáveis
- construção de valor percebido além do aspecto funcional
- estratégias de preço mais equilibradas
- ampliação de ocasiões de consumo
Mais do que oferecer alternativas sem carne, o desafio passa a ser transformar essa escolha em algo recorrente e relevante na jornada do consumidor.








