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Mudanças no vale-refeição redesenham um mercado de R$ 150 bilhões

As novas regras para vale-alimentação (VA) e vale-refeição (VR), publicadas por decreto pelo governo federal, já estão provocando um efeito em cadeia no foodservice. O que antes era um mercado dominado por poucos grandes players entra agora em uma fase de renegociação intensa, com espaço para startups, operadoras regionais e novos modelos de negócio.

Segundo estimativas da Abrasel, cerca de 170 mil contratos entre empresas e fornecedoras de benefícios terão de ser revistos nos próximos meses. O movimento aquece a disputa por um mercado que movimenta ao menos R$ 150 bilhões por ano e levanta dúvidas sobre judicialização, impactos operacionais e efeitos reais no bolso do consumidor.

Entre as principais mudanças estão o teto de 3,6% nas taxas cobradas de bares, restaurantes e supermercados, a redução do prazo de pagamento ao comércio de 30 para 15 dias e a exigência de interoperabilidade dos cartões, que deverão funcionar em todas as maquininhas. Na prática, o decreto também enfraquece o chamado rebate — desconto concedido a grandes empregadores e financiado pelas taxas mais altas cobradas dos estabelecimentos.

Com isso, empresas que antes estavam “presas” a contratos vantajosos do ponto de vista financeiro passaram a ir ao mercado em busca de novas soluções. Operadoras menores relatam aumento expressivo na procura, especialmente por modelos mais flexíveis, digitais e ajustados ao perfil dos funcionários.

O novo cenário também muda o critério de escolha. Se antes o preço era determinante, agora entram em jogo fatores como experiência do usuário, qualidade do serviço, integração tecnológica e oferta de soluções complementares, como gestão de folha, pagamentos e bem-estar corporativo — tendência já analisada pelo Portal Foodbiz ao observar a transformação dos benefícios corporativos em plataformas mais amplas.

Do ponto de vista regulatório, especialistas avaliam que o decreto do PAT busca estimular concorrência e corrigir distorções históricas do mercado. Ao mesmo tempo, executivos do setor alertam para riscos: compressão de margens, possível concentração nas grandes bandeiras de cartão e dificuldades adicionais para operadoras regionais, que atendem mercados onde os grandes players nem sempre chegam.

No varejo alimentar, associações de supermercados e restaurantes afirmam que já começam a perceber redução de taxas e ampliação da rede de aceitação, o que pode beneficiar pequenos estabelecimentos antes excluídos pelos custos elevados. Ainda assim, há receio de que parte desses ganhos seja absorvida ao longo da cadeia, sem necessariamente chegar ao consumidor final.

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Conteúdo originalmente publicado pelo O Globo

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