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Como o clima extremo está inflacionando os alimentos no mundo

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As mudanças climáticas não estão apenas transformando paisagens — elas estão reconfigurando os preços daquilo que chega ao prato. De 2022 a 2024, eventos climáticos extremos provocaram saltos inéditos nos valores de alimentos básicos em diferentes partes do mundo, com consequências diretas para consumidores, produtores e o setor de foodservice.

Alface a preço de carne? O caso australiano

Em 2022, inundações históricas no leste da Austrália provocaram perdas severas nas lavouras. O resultado? A alface americana, que antes custava cerca de AU$ 2,80, chegou a ultrapassar os AU$ 12. O impacto foi tão significativo que redes de fast food como o KFC passaram a substituir o ingrediente por repolho em seus lanches.

Estados Unidos: verduras até 80% mais caras

A seca extrema que atingiu a Califórnia entre 2020 e 2022 foi a pior já registrada. Somada à redução do volume de água do Rio Colorado — que abastece estados produtores como o Arizona — e aos danos do furacão Ian na Flórida, essa combinação elevou os preços dos vegetais em mais de 80% em um ano. A escassez afetou diretamente o fornecimento de verduras frescas no inverno americano.

Ásia em alerta: calor afeta culturas essenciais

Na China, uma onda de calor com temperaturas que chegaram a 46°C elevou os preços dos vegetais em mais de 40% no intervalo de três meses. Na Coreia do Sul, o calor e a seca tornaram o repolho 70% mais caro, afetando a produção de kimchi, prato essencial na culinária local. O governo precisou acionar estoques nacionais para evitar desabastecimento.

O azeite europeu e o custo do café

Na Europa, a produção de azeite sentiu os efeitos do clima mais seco e quente, com alta de 50% no preço. Já commodities como café e carne bovina, que exigem clima tropical e áreas extensas para cultivo e criação, se tornaram mais voláteis — e mais caras — desde 2020. O café, por exemplo, viu seus contratos futuros dispararem, gerando impacto global no consumo.

O peso da inflação climática no bolso

Um estudo do Barcelona Supercomputing Center, em parceria com o Banco Central Europeu, revelou que eventos climáticos extremos estão se tornando mais frequentes, severos e imprevisíveis. O levantamento mapeou 16 eventos significativos entre 2022 e 2024 e associou diretamente esses fenômenos à elevação de preços de alimentos. No Reino Unido, por exemplo, estima-se que as famílias gastaram, em média, £361 a mais em alimentos entre 2022 e 2023 por conta dessas alterações climáticas.

O que vem pela frente?

Segundo os autores do estudo, chuvas intensas, secas prolongadas e ondas de calor devem continuar a quebrar recordes. Embora os choques de preços tendam a ser temporários — já que a alta costuma estimular o aumento da oferta — a frequência desses choques pode tornar a inflação dos alimentos um problema estrutural.

Para o setor de foodservice, isso representa um desafio duplo: adaptar cardápios diante da volatilidade dos ingredientes e lidar com margens de lucro mais apertadas.

E o que pode ser feito?

O estudo sugere que políticas públicas podem ajudar a mitigar o impacto no consumidor, mas destaca que a redução das emissões de gases de efeito estufa é essencial para evitar que esses eventos climáticos se tornem ainda mais frequentes e graves. Investimentos em previsão climática, irrigação e adaptação das lavouras também são apontados como caminhos possíveis — embora com limitações significativas.



Fonte: Bloomberg Línea

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