Mais de 11 milhões de brasileiros convivem com o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), segundo a Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA). Marcado por sintomas como desatenção, impulsividade e dificuldade de manter o foco, o transtorno tem sido alvo de estudos que investigam como a alimentação pode influenciar o funcionamento cerebral e contribuir para o controle dos sintomas, em conjunto com outras abordagens terapêuticas.
Segundo a nutricionista e psicóloga Flávia Lucena, o padrão alimentar pode interferir diretamente na intensidade de manifestações como dificuldade de concentração, instabilidade emocional e fadiga mental.
“O cérebro depende de nível de açúcar no sangue controlado, boa oferta de micronutrientes e produção adequada de neurotransmissores para funcionar corretamente. Quando a alimentação é rica em açúcar e ultraprocessados e pobre em nutrientes, o paciente pode apresentar mais oscilação de energia, irritabilidade, impulsividade e dificuldade para manter a atenção”, explica.
Os neurotransmissores, substâncias químicas responsáveis pela comunicação entre as células do cérebro, são apenas um dos fatores influenciados pela alimentação. A especialista destaca que a dieta também interfere na qualidade do sono, na inflamação do organismo e no equilíbrio da microbiota intestinal, fatores relacionados ao desempenho cognitivo e ao comportamento.
Nutrientes também merecem atenção. Diversos deles têm sido estudados por sua relação com o funcionamento cerebral em pessoas com TDAH. Entre eles estão ômega 3, ferro, zinco, magnésio, vitaminas do complexo B e vitamina D.
“O ferro participa diretamente da via dopaminérgica, responsável pelo funcionamento da dopamina, um neurotransmissor importante para a atenção e o controle dos impulsos, fundamental no TDAH. Já o ômega 3 contribui para a integridade das membranas neuronais, que envolvem e protegem as células do cérebro, e para a modulação inflamatória. Mas isso não significa que todas as pessoas precisem suplementar esses nutrientes. O correto é identificar possíveis deficiências e corrigi-las de forma individualizada”, ressalta.
Outro ponto importante é garantir ingestão adequada de proteínas, responsáveis por fornecer aminoácidos utilizados na produção de neurotransmissores como dopamina, serotonina e noradrenalina. Açúcar, ultraprocessados e energéticos podem agravar o quadro. A especialista explica que hábitos alimentares inadequados podem dificultar ainda mais a autorregulação dos pacientes.
“O excesso de açúcar favorece picos e quedas de glicose, gerando maior instabilidade de energia e irritabilidade. Já os ultraprocessados apresentam baixa densidade nutricional e perfil que favorece a inflamação. Bebidas energéticas e excesso de cafeína podem até provocar uma sensação inicial de melhora, mas frequentemente pioram ansiedade, qualidade do sono e organização comportamental”.
Contudo, a alimentação faz parte do tratamento, mas não é cura. Apesar da importância da nutrição, Flávia reforça que mudanças alimentares não substituem o acompanhamento médico ou psicológico, pois a alimentação deve ser encarada como um dos pilares do cuidado.
Em muitos pacientes, organizar a rotina alimentar, corrigir deficiências nutricionais e reduzir ultraprocessados traz melhora significativa. No entanto, na maioria dos casos, isso precisa ser associado à psicoterapia, orientação escolar e, quando indicado, tratamento medicamentoso. Para a especialista, o melhor resultado ocorre quando diferentes profissionais atuam de forma integrada.
“A nutrição não deve ser vista nem como uma cura universal, nem como um detalhe secundário. Ela faz parte de um cuidado multidisciplinar que considera a pessoa de forma completa”, conclui.







