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O que a nova série da The Lancet revela sobre ultraprocessados

Karen M. Romanko/Photodisc/Getty Images/Arquivo

Uma nova série de três artigos publicada na revista The Lancet, assinada por 43 especialistas em nutrição e apoiada por organizações como UNICEF e OMS, reacendeu o debate global sobre o papel dos alimentos ultraprocessados na saúde pública. As análises apontam que o consumo crescente desses produtos está associado a obesidade, doenças crônicas e maior risco de mortalidade precoce — enquanto fabricantes mantêm estratégias agressivas de marketing e expansão de mercado.

A força econômica da indústria de ultraprocessados

Segundo os pesquisadores, mais da metade dos 2,9 trilhões de dólares distribuídos a acionistas da indústria alimentícia entre 1962 e 2021 veio de empresas focadas em ultraprocessados.
Carlos Monteiro, professor da USP e criador da classificação NOVA, afirma que o modelo de negócios dessas companhias depende de volumes altos e margens elevadas — e, por isso, tende a resistir a regulações voltadas à promoção de dietas mais saudáveis.

Outro ponto trazido pela série é o papel da formulação industrial na criação de produtos projetados para serem hiperpalatáveis. Como explica o pesquisador Barry Popkin, transformar ingredientes simples em bases neutras, posteriormente reconstruídas com aromatizantes e aditivos, amplifica o valor comercial e a capacidade de escalar produção — ampliando, também, o consumo.

Estratégias de influência e o debate regulatório

Os artigos mostram que a indústria organiza ações globais para influenciar políticas de alimentação, reunindo empresas, grupos de fachada, consultorias, lobistas e até influenciadores. Entre as técnicas citadas estão:

  • questionamento público da ciência sobre UPFs;
  • associações entre consumo e “responsabilidade individual”;
  • campanhas contra regulações, como restrições de publicidade infantil;
  • financiamento de estudos independentes alinhados aos interesses do setor.

A The Lancet destaca que pesquisas financiadas pela indústria têm cinco vezes mais chance de não encontrar associação entre ultraprocessados e doenças crônicas.

Entidades do setor, como a International Food & Beverage Alliance, contestam o conceito de ultraprocessamento e afirmam que a falta de consenso científico impede que o tema seja base para novas regulações.

O que dizem as evidências científicas

A revisão sistemática apresentada pela série analisou 104 estudos — 92 deles encontraram relação entre ultraprocessados e aumento de risco para doenças como:

  • obesidade
  • diabetes tipo 2
  • doenças cardiovasculares
  • alguns tipos de câncer

Ensaios clínicos recentes também indicam que dietas compostas por UPFs levam a uma ingestão calórica maior, mesmo quando comparadas a refeições com a mesma quantidade de calorias totais.

Pesquisadores da USP reforçam que o avanço dos ultraprocessados tem substituído refeições tradicionais em diversos países. Em lugares como Brasil, México e Canadá, a participação dos UPFs dobrou; na China e na Coreia do Sul, triplicou em poucos anos.

Regulações e caminhos possíveis

A série destaca iniciativas já adotadas em diferentes países:

  • impostos sobre bebidas açucaradas;
  • proibições de publicidade infantil de ultraprocessados;
  • rótulos frontais de advertência;
  • restrições ao uso de gorduras trans e certos aditivos.

Os autores defendem que essas medidas ainda são insuficientes e pedem um esforço coordenado globalmente. UNICEF e OMS já se posicionaram a favor de uma rede internacional para orientar políticas públicas voltadas à proteção de crianças e famílias.

Por que o debate importa para o Brasil e para o foodservice

O avanço dos ultraprocessados no país ocorre em paralelo ao crescimento de redes de serviços alimentares que dependem fortemente de conveniência, padronização e produtos de longa durabilidade. Para o setor, a discussão não passa apenas pela composição dos produtos, mas pela pressão crescente por transparência, oferta equilibrada e comunicação responsável — especialmente quando o público infantil está envolvido.

Acompanhar tendências científicas, regulatórias e de consumo tornou-se essencial para empresas que desejam manter competitividade e, ao mesmo tempo, responder às demandas por saúde, sustentabilidade e ética.

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