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Comida e empatia: como o paladar pode mudar nossa visão sobre imigração

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Você já reparou como um prato pode despertar memórias, emoções — e até mudar a forma como enxergamos o mundo? Um novo estudo das universidades de Birmingham (Reino Unido) e Munique (Alemanha) mostra que experimentar diferentes culinárias pode ir muito além do prazer gastronômico: pode ajudar a formar uma visão mais aberta e empática sobre temas como a imigração.

Os pesquisadores ouviram mais de mil pessoas e perceberam uma relação direta entre hábitos alimentares e posturas sociais. Aqueles que costumam provar comidas típicas de outros países — como a indiana, tailandesa ou turca — se mostraram mais receptivos à diversidade cultural e mais favoráveis à entrada de imigrantes em seus países.

O curioso é que essa abertura não surge apenas de quem já é naturalmente mais liberal. Mesmo pessoas com perfil mais conservador tendem a rever suas percepções após vivenciar novas experiências gastronômicas. Segundo o sociólogo Rodolfo Leyva, autor do estudo, “o paladar é capaz de despertar sentimentos como empatia e curiosidade pelo próximo, criando familiaridade sem exigir grandes debates e semeando a tolerância de forma espontânea”.

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Do sabor à empatia

A explicação está no cérebro. As regiões que processam o paladar se conectam diretamente às áreas responsáveis pelas emoções e pela memória. Quando provamos algo novo e prazeroso, ativamos o sistema de recompensa e reforçamos memórias afetivas — o que estimula a curiosidade e o desejo de repetir a experiência.

Como destacou o neurologista Matheus Gomes Ferreira, “provar algo novo ativa o sistema de recompensa e desperta a vontade de repetir a experiência, o que contribui para uma abertura da mente”.

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Comer é também um ato social

O sociólogo francês Pierre Bourdieu já apontava que comer é muito mais que uma necessidade biológica: é um ato simbólico, capaz de expressar identidade e conectar pessoas. E é exatamente isso que o estudo reforça. Quando frequentamos restaurantes de diferentes origens, conhecemos histórias, culturas e modos de viver — o que pode diminuir distâncias e preconceitos.

Como resume Leyva, “quando experiências positivas dessa natureza se repetem, a distância psicológica entre grupos diminui”.

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Um aprendizado que começa cedo

Os pesquisadores sugerem ainda que o contato com diferentes cozinhas aconteça desde a infância, para que as novas gerações cresçam com uma relação mais curiosa, afetiva e empática com o outro.

Afinal, cada tempero carrega uma história — e abrir espaço para novos sabores pode ser também uma forma de abrir o coração para o mundo.


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(Matéria adaptada da revista VEJA)

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