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Com a chinesa Mixue, mercado de sorvetes vai esquentar

Com mais de 46 mil lojas em 12 países e considerada a maior rede de alimentos do mundo, a chinesa Mixue chega ao Brasil com investimentos da ordem de R$ 3,2 bilhões, proposta de gerar 25 mil empregos e abrir 2 mil lojas por aqui até 2030. A iniciativa marca um novo momento no competitivo mercado de sorvetes no Brasil com a abertura da primeira no shopping Cidade de São Paulo, na Avenida Paulista.

A chegada da Mixue sinaliza também uma outra etapa na escolha do mercado brasileiro como um dos principais destinos de investimentos diretos dos chineses na cadeia de consumo, em especial pós-conflitos com Estados Unidos.

A presença chinesa se torna mais marcante no consumo brasileiro e já envolve marketplaces (Alibaba, Shopee, Shein, Temu, TikTok), plataformas de entrega (99-DiDi, Keeta), veículos (BYD, GWM, Chery, GAC), eletrônicos (Xiaomi, Huawei, Lenovo) e agora diretamente redes de produtos de consumo massificado como sorvetes e sobremesas.

O mercado de sorvetes no Brasil

O mercado brasileiro de sorvetes é estimado em R$ 12,34 bilhões nos estudos Crest da Gouvêa Inteligência e teve crescimento de 14% em 2025 em relação ao ano anterior, com uma participação de 3,6% no total do tráfego gerado no foodservice. Em termos de categorias, estaria dividido entre sorvetes de pote e massa com 73%; picolés com 13%; e casquinha com 11%. Esses dados são da Top Taylor, um dos principais fornecedores de equipamentos para o setor no Brasil.

O consumo per capita de sorvetes no país teve leve crescimento ao longo do tempo, segundo as entidades que monitoram esse desempenho, evoluindo de 5,2 litros por pessoa em 2018 para 5,3 litros em 2024. Mas segue bem abaixo quando comparado ao de outros países no mundo como Nova Zelândia (com 28,4 litros), Estados Unidos (20,8), Austrália (18) ou Finlândia (14,2), indicando potencial relevante de crescimento, apesar das diferenças socioeconômicas.

No cenário atual, a disputa já estava aquecendo nas categorias de produtos populares, impulsionada pelas grandes redes. No segmento premium, ainda são observadas poucas marcas com capacidade de escala para crescimento significativo de curto prazo.

Vale considerar que, enquanto o mercado global de sorvetes tem crescimento composto de 3% a 4%, o segmento premium cresce de 6% a 9%. No plano global, o segmento premium tem participação entre 20% a 25% e, no Brasil, está em torno de 10% a 15%.

Esses fatores caracterizam o potencial e as oportunidades para entrada de marcas internacionais e a aceleração de crescimento para marcas locais tanto com orientação para valor, como é o caso Mixue, como também no segmento premium.

Como é habitual, esse processo de aumento da oferta tem o efeito imediato de fazer crescer a própria demanda por conta dos estímulos e promoções gerados com aumento do consumo total da categoria. Mas, de alguma forma, também redivide o bolo – ou o sorvete – entre os concorrentes, redesenhando as participações de mercado e colocando alguma pressão na rentabilidade.

Mercado redesenhado

O setor de sorvetes no Brasil sempre operou com cinco camadas relativamente estáveis envolvendo os de larga escala, como Kibon e Nestlé, as redes de fast food, como McDonald’s, Bob’s, Burger King, e outros operadores com oferta em suas lojas e quiosques.

Existem também as redes as franquias especializadas, como Chiquinho e Oggi, as redes emergentes, como Rochinha, Milk Shake Up, Mr Mix, Ice Creamy e Gela Boca. Há as redes do segmento premium e artesanal, como Bacio di Latte, Gelato Borelli, e outras que também têm crescimento expressivo.

Isso sem falar operações como Cacau Show, que também oferece sorvetes em muitas de suas 5.000 lojas.

Na realidade de participações, as marcas líderes, Unilever e Kibon, detêm entre 30% e 35% do total, o que sinaliza um grau de concentração relativamente baixo no mercado e confirma a oportunidade para a entrada de novos jogadores.

A chegada da Mixue pode adicionar uma outra categoria nesse jogo com operações próprias em mega escala, repetindo processos que foram observados na própria China, Coreia e nos EUA.

A proposta da Mixue avança num conceito orientado para valor de uma sorveteria tradicional para algo mais ambicioso e orientado para conveniência, ampliando a oferta de sobremesas e incorporando outros produtos.

Evolução previsível

Esse ciclo de expansão acelerada por aumento e promoção de novas ofertas massificadas já foi vivido anteriormente quando tivemos a expansão das “paletas mexicanas”, entre 2014-17, ou posteriormente com a expansão massificada das operações com açaí.

Será interessante observar a expansão das redes e produtos de indulgência como sorvetes e sobremesas ao mesmo tempo que haverá a expansão do acesso e consumo dos inibidores de apetite por conta de novos produtos, marcas e formulações sendo lançados a preços mais competitivos.

Na prática do varejo e do foodservice, no curto prazo de um a três anos, deverá ocorrer esse crescimento significativo pelas novas aberturas e o efeito do que é novo com aumento de consumo. No médio prazo, de três a cinco anos, haverá saturação de mercado com fechamento de lojas e consolidação. E, no mais longo prazo, a reconfiguração com três a seis conceitos, com operações próprias e franquias que dominarão o mercado massificado, porém com forte crescimento também dos produtos e conceitos premium e artesanais, com operações mais regionais.

Vai esquentar

Nos últimos anos já se notava uma evolução importante na oferta de novas marcas, produtos, subcategorias e no foodservice como um todo, nos diversos formatos orientados para sorvetes e sobremesas.

A entrada e o “apetite” da Mixue no segmento de sorvetes vai aquecer ainda mais esse mercado pela multiplicação de pontos, novos franqueados, promoções e alternativas, e haverá evidente composição com as plataformas de delivery para algumas subcategorias, trazendo uma participação maior do segmento em tudo que envolve o foodservice.

Ao mesmo tempo que muitos conceitos e operadores irão se beneficiar do crescimento da categoria, haverá pressão competitiva pelo aumento das alternativas de custo mais baixo e uma pressão pela polarização do mercado, com maior crescimento nos segmentos dos diferenciados e premium numa ponta e os de menor preço e ênfase em valor na outra. E, como sempre, o estreitamento dos que ficarem no meio dessa polarização.

Esse jogo. combinado com a expansão dos inibidores de apetite, vai gerar um momento de mercado muito interessante de ser acompanhado e com desdobramentos que podem influenciar outras categorias e segmentos.

Como sempre o consumidor, os shoppings e centros comerciais, o varejo de alimentos de forma geral, o foodservice e o mercado de forma ampla ganham mais alternativas. E, talvez, algumas surpresas.

Vale refletir e se antecipar participando do Connection Foodservice Day no dia 2 de junho, em São Paulo. Com a proposta de transformar os principais insights da National Restaurant Association Show em conhecimento aplicável ao mercado brasileiro, o evento reunirá executivos, indústrias, operadores, distribuidores e fornecedores para uma jornada de conteúdo, relacionamento e experiências se posicionando como uma plataforma de conexões que impulsiona negócios, ideias e parcerias no setor.

Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem

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