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Restaurantes terão que informar consumo de calorias no Reino Unido

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Diante do avanço da obesidade como um problema de saúde pública, o governo britânico apresentou uma nova proposta para envolver diretamente o setor de alimentação fora do lar no enfrentamento da crise. A iniciativa exige que redes de restaurantes com mais de 250 funcionários informem ao governo o consumo médio de calorias dos clientes. A medida, liderada pelo secretário da Saúde, Wes Streeting, integra a estratégia nacional de combate à obesidade e pretende influenciar as escolhas alimentares da população por meio de mais transparência e responsabilização das empresas.

Transparência como instrumento de saúde

O objetivo do Departamento de Saúde é claro: reduzir a ingestão calórica dos consumidores e, com isso, melhorar os índices de saúde da população britânica. Para isso, o governo pretende estabelecer metas para que as empresas “aumentem a saúde das vendas”, ou seja, ofereçam produtos mais equilibrados do ponto de vista nutricional. A expectativa é de que a obrigatoriedade de reportar dados estimule restaurantes a reformular cardápios e priorizar ingredientes mais saudáveis.

Resistência do setor de foodservice

A proposta, no entanto, foi recebida com reservas pela indústria. Segundo Kate Nicholls, CEO da UK Hospitality — entidade que representa o setor —, os empresários não foram consultados previamente, e a nova obrigação representa mais um ônus burocrático e financeiro. Para ela, as metas impostas e os relatórios exigidos têm potencial de encarecer os serviços, num momento em que o setor já enfrenta forte pressão inflacionária.

“O setor vem tentando manter preços acessíveis e qualidade mesmo com o aumento dos custos operacionais. Imposições adicionais apenas agravam o cenário”, afirmou Nicholls. Ela defende que o foco da política pública deveria estar na educação alimentar nas escolas, e não em exigências que recaiam sobre empresas que ainda estão em processo de recuperação econômica.

Crise no setor: fechamento recorde de restaurantes

De fato, a conjuntura é desafiadora. Entre setembro de 2023 e 2024, mais de 1.400 restaurantes fecharam as portas no Reino Unido — o maior número já registrado. O cenário é resultado da elevação contínua de custos com mão de obra, energia, insumos e tributos, além das mudanças recentes no seguro nacional para empregadores. A insegurança regulatória, como apontam representantes do setor, também tem contribuído para o fechamento de unidades.

Próximos passos e possíveis impactos

A proposta será submetida a consulta pública após o lançamento completo da nova estratégia de combate à obesidade, com horizonte de dez anos. Além do monitoramento calórico nos restaurantes, o plano prevê também a limitação da venda de itens ultraprocessados em supermercados — com foco em incentivar o consumo de frutas e vegetais. Estão em discussão, inclusive, multas para varejistas que não cumprirem as metas estabelecidas.

Nos supermercados, as diretrizes exigem uma redução de 100 calorias no “carrinho de compras médio”, e espera-se que os restaurantes sigam regras semelhantes. As cadeias com mais de 250 funcionários, que já estão obrigadas a informar a contagem calórica nos menus, deverão ser as principais impactadas.

Efetividade ainda em debate

O governo defende que mudanças pequenas, como a redução de 200 calorias diárias por pessoa, poderiam diminuir significativamente os índices de obesidade — hoje responsável por um custo anual de £11 bilhões ao sistema público de saúde (NHS). Por outro lado, dados anteriores apontam que políticas de rotulagem calórica resultaram em uma queda média de apenas 11 calorias por refeição, o que levanta dúvidas sobre a eficácia das novas medidas.

Apesar das incertezas, o debate reforça a urgência de políticas públicas mais eficazes e sustentáveis para promover hábitos alimentares saudáveis — e coloca o setor de foodservice no centro dessa transformação.



Fonte: Diário do Povo

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