Nos últimos anos, os aplicativos de delivery se consolidaram como um dos principais motores de crescimento do food service no Brasil. Eles ampliaram o alcance dos restaurantes, trouxeram conveniência para o consumidor e ajudaram milhares de estabelecimentos a atravessar períodos desafiadores.
Mas, à medida que esse modelo amadurece, um novo movimento começa a ganhar força nos bastidores do setor: restaurantes estão voltando a investir em canais próprios para retomar margem, controle e relacionamento direto com o cliente. Essa mudança não acontece por acaso.
Com taxas que podem chegar a 20% ou 30% por pedido, além da limitação no acesso aos dados dos consumidores, muitos operadores passaram a questionar a sustentabilidade de uma dependência quase total dos marketplaces. O que antes era visto como solução única começa a ser reposicionado como parte de uma estratégia, e não mais como o centro dela.
Na prática, o que se observa é uma reconfiguração da jornada digital no food service.
Restaurantes estão estruturando seus próprios ecossistemas, investindo em ferramentas que permitem gerenciar reservas, organizar filas, disponibilizar cardápios digitais e, principalmente, viabilizar canais diretos de pedido. O objetivo é claro: reduzir a intermediação, melhorar a rentabilidade e construir uma relação mais próxima com o cliente.
Esse movimento já acontece em escala relevante. Hoje, soluções voltadas à digitalização da jornada própria do restaurante estão presentes em milhares de estabelecimentos pelo país, conectando milhões de consumidores todos os meses. Mais do que uma tendência pontual, trata-se de uma mudança estrutural na forma como o setor entende sua presença digital.
É importante destacar que não se trata de abandonar os aplicativos de delivery. Eles continuam tendo um papel importante na aquisição de novos clientes e na geração de demanda. O ponto central é o equilíbrio.
Restaurantes mais maduros digitalmente começam a operar com uma lógica multicanal: utilizam os marketplaces como vitrine e canal de entrada, mas trabalham ativamente para migrar recorrência e relacionamento para seus próprios canais. É uma estratégia semelhante à adotada por diversos outros setores da economia digital.
Outro aspecto relevante é o acesso aos dados. Ao operar canais próprios, o restaurante passa a entender melhor o comportamento do seu cliente: frequência, preferências, horários de consumo, e pode usar essas informações para tomar decisões mais estratégicas, seja na construção de cardápio, na definição de preços ou em ações de fidelização.
Em um cenário de margens pressionadas e competição crescente, depender exclusivamente de plataformas terceiras significa abrir mão de parte relevante desse ativo. Por outro lado, investir em canais próprios é um passo importante para transformar relacionamento em valor de longo prazo.
O food service brasileiro sempre foi resiliente e adaptável. Agora, entra em uma nova fase, em que a tecnologia deixa de ser apenas um suporte operacional e passa a ocupar um papel estratégico na sustentabilidade do negócio.
E, ao que tudo indica, esse é um caminho sem volta.
Porta-voz/ Autor – Roni Lacerda (Co-CEO Tagme)







