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FoodBiz

O drama da falta de tráfego X a ressignificação estratégica do canal foodservice

Já há algum tempo temos debatido sobre a estagnação do tráfego no foodservice nos últimos 3 anos. Ora falamos de BETs, de endividamento, medicação GLP-1, mas, não temos realmente falado sobre o contexto macro de forma mais profunda.

A ressignificação do canal foodservice se mostra como obrigatória — não é apenas uma obrigação ética é a maior oportunidade de inovação e diferenciação de mercado em décadas. O foodservice, por sua escala e alcance, ao longo dos anos tem usado o gatilho da indulgência e da conveniência calórica para gear seu crescimento e agora se depara com uma crise global de saúde pública sem precedentes: sobrepeso e obesidade atingem níveis alarmantes em quase todos os países.

A crise de saúde pública não é um fenômeno isolado — ela se manifesta de formas distintas em diferentes contextos geográficos e culturais. A seguir, apresento um panorama comparativo entre o Brasil e outros cinco países, destacando os desafios epidemiológicos e como eles devem dirigir o mercado de alimentação fora do lar.

PaísTaxa de Obesidade em Adultos (%)Taxa de Sobrepeso em Adultos (incluindo Obesidade) (%)Contexto Epidemiológico / Desafio Principal
Brasil31%60%Crescimento acelerado se aproximando dos índices de países desenvolvidos, com forte impacto econômico no SUS.
Estados Unidos43%79%Platô em níveis criticamente elevados, com alto custo de comorbidades e forte apelo a alimentos ultraprocessados.
Chile34%74%Pioneiro em políticas públicas rigorosas (lei de rotulagem de selos pretos), servindo de modelo de regulação.
França17%47%Baixos índices relativos devido à forte cultura gastronômica tradicional (“paradoxo francês”), mas com crescimento preocupante entre os jovens.
China8%51%Transição nutricional ultra-rápida associada à urbanização e ocidentalização da dieta, tornando-se o país com maior número absoluto de pessoas com excesso de peso.
África do Sul30%68%Grave disparidade de gênero (obesidade feminina chega a 45,7% vs. 12,8% masculina) e coexistência de desnutrição e obesidade (dupla carga de má nutrição).

Fonte: dados públicos, adaptado Tanjerin – população adulta desses países.

Esses dados revelam que o foodservice não é apenas um reflexo da cultura alimentar local, ele também é moldado por barreiras culturais, econômicas e regulatórias. No Brasil, por exemplo, a forte dependência de alimentos ultraprocessados e a ausência de políticas públicas robustas criam um ambiente desfavorável à saúde. Já no Chile, a regulamentação rigorosa está começando a gerar mudanças positivas no comportamento do consumidor.

Além da minha formação em negócios, minha formação-base é em nutrição e nesse momento de inflexão é importante combinar a ciência da saúde com a estratégia corporativa de alimentação fora do lar. E o que eu vejo é que o foodservice pode de deixar de ser um vilão epidemiológico para se se tornar um agente ativo de promoção de saúde e bem-estar, desde que as estratégias corporativas sejam alinhadas a objetivos de saúde pública.

Acha que estou exagerando? Quantas vezes você ouviu que alguém está treinando para poder comer no final de semana. Para “sair da dieta” comer fora de casa ganhou essa conotação de não ser tão bom para a saúde. De que eu sempre exagero. Especialmente por não controlar porções e quando peço para dividir em um restaurante recebo um olhar de recriminação do garçom.

Precisamos parar de reclamar de medicações que ajudam na redução de peso e no controle do apetite e entender que essa é uma necessidade social! Temos a oportunidade realmente gerar longevidade com qualidade de vida e reverter os problemas empurrados para a saúde pública, que custa muito caro para o país e para nossa sociedade.

Esse cenário exige uma abordagem colaborativa entre o setor público e o privado. Parcerias estratégicas podem gerar valor compartilhado, desde a reformulação voluntária de produtos até a criação de menus infantis mais saudáveis e transparentes.

A redução de sódio, açúcar e gorduras trans em pratos e bebidas é uma iniciativa essencial. Empresas podem se comprometer com metas de reformulação, alinhadas a diretrizes da OMS e do Ministério da Saúde. Isso não apenas melhora a saúde do consumidor, mas também fortalece a imagem da marca como responsável e inovadora.

Menus infantis devem ser mais do que uma estratégia de fidelização — eles devem ser uma oportunidade de educar e influenciar hábitos alimentares desde cedo. A transparência sobre ingredientes, calorias e nutrientes é fundamental, assim como a inclusão de opções que atendam a critérios nutricionais rigorosos.

O marketing, poderoso instrumento de educação, precisa construir campanhas que promovam escolhas saudáveis, sem perder a atratividade comercial. A comunicação clara e honesta sobre os benefícios nutricionais dos produtos fortalece a confiança do consumidor.

A inovação tecnológica está redefinindo o foodservice, tornando-o mais eficiente, personalizado e alinhado aos objetivos de saúde pública.

A inteligência artificial pode ser usada para recomendar pratos com base em metas de saúde, como perda de peso, controle de diabetes ou aumento de energia. Cozinhas inteligentes, por sua vez, podem operar com ingredientes frescos e minimamente processados, garantindo qualidade e nutrição.

A ressignificação do foodservice não é uma questão opcional — ela é uma necessidade urgente e uma oportunidade estratégica. As marcas que se alinham a objetivos de saúde pública estão posicionadas para liderar o mercado da próxima década.

Como disse recentemente: “O foodservice não pode mais ser apenas o que alimenta — ele precisa ser o que transforma.”

É hora de agir. É hora de inovar. É hora de redefinir o que é possível no setor de alimentação fora do lar. O futuro da saúde pública depende disso.

Cristina Souza | Co-fundadora e CEO da Tanjerin Agência de Estratégia e Inovação para o Foodservice

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