Tecnologia de edição genética desenvolvida pela AgroNetica reduziu em cerca de 42% os danos causados por doença em testes controlados e pode contribuir para a produtividade e a sustentabilidade da cadeia do chocolate.
A startup de tecnologia agrícola AgroNetica anunciou avanços no desenvolvimento de uma variedade de cacau geneticamente editada, sem a introdução de genes de outras espécies, com maior resistência a doenças. A iniciativa busca enfrentar desafios da cadeia global do chocolate, que sofre os impactos das mudanças climáticas, da redução da produtividade e da pressão sobre o abastecimento de matéria-prima.
Subsidiária da BetterSeeds, empresa de tecnologia agrícola com atuação em Israel e nos Estados Unidos, a AgroNetica utiliza uma plataforma de edição genética de segunda geração adaptada ao cultivo do cacau. O objetivo é desenvolver plantas mais resistentes às condições adversas de produção e acelerar a disponibilização comercial de novas variedades.
Segundo a companhia, testes controlados demonstraram que os cacaueiros geneticamente editados apresentaram aproximadamente 42% menos danos provocados pela infecção por Phytophthora, patógeno associado à podridão-parda, uma das doenças que afetam a cultura.
A característica de resistência também foi transmitida à geração seguinte de plantas, resultado considerado importante para avançar nas etapas de multiplicação e desenvolvimento de material de plantio comercial.
Mudanças climáticas pressionam a produção mundial de cacau
O desenvolvimento da tecnologia ocorre em um momento de desafios para a cadeia produtiva do cacau. Condições climáticas extremas, doenças e períodos prolongados de seca têm afetado a produtividade em importantes regiões produtoras.
Os países africanos, responsáveis por mais de 60% da oferta mundial de cacau, enfrentam perspectivas de redução da produção até 2027. Entre os fatores de preocupação estão os efeitos das alterações climáticas e a disseminação de doenças nas lavouras.
Com os preços do cacau ainda elevados em relação aos patamares anteriores à crise de abastecimento, a indústria do chocolate busca alternativas para garantir maior estabilidade no fornecimento da matéria-prima.
Para Ido Margalit, CEO da BetterSeeds e da AgroNetica, o problema vai além da disponibilidade do produto.
“A indústria do cacau não tem apenas um problema de abastecimento, tem um problema de produção”, afirma.
Segundo o executivo, o desenvolvimento de plantas mais resistentes pode ajudar os produtores a enfrentar condições ambientais cada vez mais desafiadoras.
“Doenças, calor e seca começam na fazenda. Nosso objetivo é usar a edição genética para criar cacaueiros que tenham um desempenho melhor nas condições que os produtores enfrentam hoje e enfrentarão nos próximos anos”, explica.
Edição genética pode acelerar o desenvolvimento de novas variedades
Diferentemente do melhoramento genético convencional, que pode levar décadas para introduzir e validar características em culturas de crescimento lento, a edição genética permite realizar modificações direcionadas no material genético das plantas.
No caso do cacau, esse processo ganha relevância porque os cacaueiros levam anos para atingir a maturidade produtiva.
A AgroNetica pretende combinar linhagens avançadas resistentes a doenças com as tecnologias desenvolvidas pela BetterSeeds para reduzir o tempo necessário à obtenção de variedades comerciais.
A plataforma já foi aplicada em outras culturas agrícolas, com foco em características como tolerância ao calor e à seca, aumento da produtividade, melhoria do desempenho agronômico e maior eficiência na colheita.
Além da resistência a doenças, a startup avalia o desenvolvimento de variedades de cacau com menor absorção de metais pesados e ausência de cafeína, ampliando as possibilidades de inovação para a indústria de alimentos.
A empresa concentra seus esforços atuais na validação em campo, multiplicação das plantas e desenvolvimento comercial, com etapas de comercialização previstas a partir de 2027.
Sustentabilidade e produtividade entram na estratégia
Outro objetivo da AgroNetica é contribuir para a sustentabilidade econômica e ambiental da produção de cacau.
A companhia considera que plantas mais resistentes e produtivas podem reduzir perdas agrícolas e permitir que os produtores aumentem sua produção em áreas já cultivadas, diminuindo a pressão pela expansão das lavouras sobre regiões florestais.
Essa possibilidade ganha importância diante das exigências internacionais relacionadas à rastreabilidade e ao combate ao desmatamento nas cadeias de suprimentos agrícolas.
A AgroNetica também aponta potenciais benefícios sociais. Segundo a empresa, lavouras mais produtivas, menores perdas e maior eficiência operacional podem contribuir para melhorar a renda dos agricultores e reduzir pressões econômicas associadas a problemas sociais, incluindo o trabalho infantil.
Esses resultados, entretanto, dependerão da eficácia das novas variedades em condições reais de cultivo, de sua adoção pelos produtores e de outras medidas de sustentabilidade e responsabilidade social.
Indústria do chocolate pode ganhar nova alternativa de abastecimento
A evolução das regulamentações sobre novas técnicas genômicas também pode favorecer o desenvolvimento de aplicações agrícolas baseadas em edição genética.
Na Europa, as discussões regulatórias sobre plantas obtidas por essas tecnologias têm avançado, abrindo perspectivas para a utilização de variedades desenvolvidas sem a introdução de material genético externo.
Para a AgroNetica, esse cenário pode facilitar a transição entre pesquisa científica, validação agrícola e aplicação comercial.
A empresa busca estabelecer parcerias com fabricantes de chocolate, processadores, produtores e outros participantes da cadeia de valor do cacau para acelerar o desenvolvimento e a adoção da tecnologia.
“A indústria fez progressos enormes no rastreamento e na mensuração dos desafios éticos e de sustentabilidade em torno do cacau. Acreditamos que o próximo passo é aprimorar a própria planta, para que os produtores possam produzir de forma ética e mais confiável, em terras já existentes, com menos perdas e uma base econômica mais sólida”, destaca Margalit.
Para o setor de alimentos e bebidas, a inovação representa uma possível alternativa de longo prazo para ampliar a segurança no abastecimento de cacau. Caso os resultados obtidos em laboratório sejam confirmados em campo, a tecnologia poderá contribuir para reduzir perdas, melhorar a produtividade e fortalecer a resiliência da cadeia produtiva do chocolate.







