Alta da inadimplência e juros elevados reduzem o espaço no orçamento e podem afetar o consumo fora do lar
O início de 2026 trouxe novos sinais de aperto financeiro para as famílias brasileiras. Dados do Banco Central, divulgados pelo G1, mostram que a inadimplência total chegou a 5,0% em janeiro, o maior patamar desde 2017. Entre as famílias, o índice alcançou 6,4%, indicando aumento do endividamento e maior dificuldade para honrar compromissos no curto prazo.
Esse cenário acende um alerta para o setor de alimentação fora do lar. Quando a renda disponível fica mais apertada, gastos considerados mais flexíveis — como refeições em bares, restaurantes e cafeterias — tendem a ser os primeiros a sofrer ajustes no orçamento doméstico.
Com juros elevados e crédito mais caro, cresce o risco de desaceleração do consumo. Ainda que os efeitos não apareçam de forma imediata nas vendas, a continuidade dessa tendência pode reduzir a frequência do consumidor nos estabelecimentos ao longo dos próximos meses.
Do lado das empresas, o quadro também exige atenção. Uma pesquisa recente da Abrasel aponta que 35% dos bares e restaurantes têm pagamentos em atraso, incluindo encargos trabalhistas, impostos, aluguel e fornecedores. O número representa uma melhora em relação ao mesmo período do ano passado, quando o índice era de 39%, mas ainda revela um setor operando sob pressão financeira.
Esse contexto também se conecta a discussões recentes sobre mudanças nas regras de trabalho, como o debate em torno do fim da jornada 6×1. Em artigo publicado no jornal O Globo, o presidente da Abrasel, Paulo Solmucci, alertou que alterações desse tipo, quando desconsideram o cenário econômico, podem gerar efeitos indiretos sobre preços e consumo.
Segundo ele, a redução da jornada sem redução salarial tende a elevar o custo da mão de obra. Em um momento em que muitas famílias já estão endividadas, esse aumento pode acabar chegando ao consumidor final, especialmente nas camadas de renda mais baixa.
Além disso, pequenos negócios — que têm menos margem financeira para absorver novos custos — podem perder competitividade ou até fechar as portas, o que impacta emprego, renda e a dinâmica econômica de bairros e cidades.
Para Solmucci, a combinação de famílias com orçamento pressionado e empresas com pouca margem de manobra exige cautela nas decisões econômicas e regulatórias.
“Quando a inadimplência das famílias sobe, cresce o risco de retração no consumo. Ao mesmo tempo, mais de um terço dos estabelecimentos do setor ainda têm pagamentos em atraso, o que mostra um segmento que segue ativo, mas sob forte pressão”, afirmou.
Segundo ele, políticas que reduzam o custo do crédito podem ajudar a reequilibrar esse cenário. Com juros mais baixos, consumidores conseguem reorganizar suas finanças e empresas ganham espaço para investir e planejar crescimento.
Mesmo diante dos desafios, o setor mantém capacidade de reação — especialmente se o ambiente econômico oferecer mais previsibilidade. Quando a situação financeira das famílias melhora, o impacto costuma aparecer rapidamente no movimento de bares e restaurantes.







