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Brasil consolida protagonismo no mercado de carnes premium e mira 2026 com cautela

O paladar evolui — e dificilmente anda para trás. Essa percepção ajuda a explicar o fortalecimento do mercado de carnes premium no Brasil e no mundo. Maior produtor global de carne bovina, o país vem ampliando seu destaque não apenas em volume, mas também em qualidade, ganhando espaço em um segmento cada vez mais valorizado por consumidores e operadores do foodservice.

Em 2025, o mercado de carnes gourmet operou em um ambiente mais favorável, impulsionado tanto pela retomada do consumo interno quanto pelo cenário internacional. A combinação de demanda aquecida e dificuldades enfrentadas por outros grandes produtores abriu oportunidades importantes para o produto brasileiro, especialmente nas exportações. Para 2026, o desafio central será garantir a oferta de animais em um contexto de redução do rebanho.

A conjuntura internacional tem favorecido o Brasil. Os Estados Unidos, outro importante fornecedor de carne de alta qualidade, enfrentam um déficit significativo em seu rebanho, com expectativa de recuperação apenas a partir de 2027. Esse cenário abriu espaço para que a carne premium brasileira avançasse em mercados antes dominados pelos norte-americanos.

Segundo especialistas do setor, o Brasil é hoje o único país capaz de atender simultaneamente às exigências de qualidade e escala desse público mais exigente. Programas de certificação, como o Carne Angus Certificada, registraram crescimento relevante em 2025, com aumento no número de animais avaliados e forte presença de fêmeas — reconhecidas pela maior maciez e suculência da carne.

Os principais destinos da carne premium brasileira incluem China, México, Chile, países do Oriente Médio e Israel, cada um com exigências específicas de corte e certificação. A expectativa é que essa demanda siga em expansão em 2026, sustentada pela limitação da oferta internacional e pela consolidação da imagem do Brasil como fornecedor confiável de carnes de alto padrão.

Apesar do otimismo, o setor observa com atenção alguns sinais de alerta. A desvalorização da arroba ao longo do último período levou produtores a reduzir investimentos em tecnologia e genética, além de aumentar o abate de fêmeas, o que pode impactar a disponibilidade futura de animais. A projeção para 2026 indica um cenário mais restritivo de oferta, exigindo planejamento cuidadoso de toda a cadeia.

Outro destaque de 2025 foi o avanço da carne certificada Hereford, impulsionado por um trabalho consistente de comunicação com o consumidor. A aproximação com chefs, influenciadores e o foodservice ajudou a reforçar atributos como marmoreio, maciez e padronização, reduzindo a percepção de risco na compra e ampliando a disposição a pagar preços superiores aos da carne convencional.

A diferença de valor entre carnes premium e tradicionais pode variar de 10% a 50%, dependendo do corte. Para o consumidor, o principal ganho está na previsibilidade da experiência. Para o produtor, a certificação pode representar bonificações relevantes, tornando o segmento atrativo mesmo em ciclos mais desafiadores da pecuária.

No mercado externo, as exportações de carne certificada também avançaram de forma expressiva, alcançando recordes e ampliando a lista de destinos. Questões geopolíticas e tarifárias, especialmente envolvendo os Estados Unidos, contribuíram para a abertura de novos mercados e para a substituição de fornecedores em alguns países.

No consumo interno, fatores culturais e eventos de grande visibilidade podem reforçar a demanda. A realização da Copa do Mundo em 2026, por exemplo, tende a estimular encontros sociais e churrascos, favorecendo cortes premium. Ainda assim, especialistas destacam que o desempenho da Seleção Brasileira pode influenciar diretamente esse movimento.

A evolução do mercado premium também redefiniu o conceito de churrasco no Brasil. Cortes do dianteiro, antes subvalorizados, ganharam protagonismo graças ao avanço genético, ao manejo mais profissional e à melhoria da alimentação dos animais. Itens como flat iron, denver steak, short rib e cowboy passaram a integrar o cardápio de restaurantes e açougues especializados, ampliando o repertório do consumidor e reforçando o aproveitamento integral do boi.

Para quem atua na ponta, essa transformação é clara. Chefs e especialistas em carnes apontam que a qualidade atual permite explorar novos cortes, antes considerados duros ou pouco nobres, sem abrir mão de sabor e suculência. Além disso, alguns desses produtos chegam ao consumidor com preços mais acessíveis, dependendo da participação do corte no animal.

O histórico recente mostra que, apesar dos desafios enfrentados pela pecuária nos últimos anos, o consumo de carne de qualidade segue uma trajetória de crescimento consistente desde a década passada. À medida que o consumidor aprende a reconhecer atributos como marmoreio, origem e certificação, a escolha por carnes premium deixa de ser pontual e passa a fazer parte do hábito.

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Fonte: Globo Rural

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