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Fim da escala 6×1 já movimenta foodservice antes mesmo de aprovação

Enquanto o Congresso discute a PEC que propõe o fim da escala 6×1 e a redução da jornada semanal para 40 horas, o tema já domina as conversas entre empresários do foodservice brasileiro. Durante a NRA Show, maior feira global do setor realizada em Chicago, a pauta ultrapassou debates sobre cardápio e tecnologia e ganhou protagonismo entre operadores e lideranças do mercado.

O principal ponto de atenção do setor não é apenas a redução da carga horária, mas a possibilidade de engessamento das jornadas em oito horas fixas por dia — algo que empresários consideram incompatível com a dinâmica operacional do foodservice.

A Associação Nacional de Restaurantes (ANR) já apresentou ao Congresso uma proposta alternativa: aceitar a jornada de 40 horas semanais, desde que exista liberdade para distribuir essas horas de acordo com o perfil de cada operação. Pela proposta, a partir da 41ª hora semanal continuaria valendo o pagamento de hora extra.

Para Fernando de Paula, conselheiro e ex-presidente da ANR, modelos rígidos não refletem a realidade do setor.

“Você tem pizzarias que operam à noite, restaurantes por quilo concentrados no almoço e casas de chá que funcionam poucas horas por dia. Um modelo único não contempla essa diversidade”, afirma.

Operações já começam a testar novos modelos

Parte do setor não espera a aprovação da PEC para iniciar mudanças operacionais. Redes como o Grupo Trigo, dono de marcas como Spoleto, Gendai e China in Box, já possuem franqueados migrando voluntariamente para escalas 5×2 ou trabalhando em formatos 12×36.

Na BFFC, holding responsável pelo Bob’s, o debate é acompanhado com mais cautela. A companhia reconhece testes em andamento, mas alerta para riscos de perda de produtividade em um cenário de escassez de mão de obra.

Ao mesmo tempo, cresce no setor o uso de contratações flexíveis por aplicativos e jornadas sob demanda, movimento que alguns empresários já associam à “uberização” do trabalho no foodservice.

Escassez de mão de obra preocupa setor

A principal preocupação dos operadores está no impacto sobre custos e contratação. Estimativas do mercado apontam que a redução da jornada poderá aumentar entre 10% e 20% a necessidade de mão de obra nas operações.

O desafio acontece em um momento de desemprego historicamente baixo no Brasil. Em 2025, a taxa fechou em 5,6%, o menor patamar da série histórica. Com menos profissionais disponíveis, setores como varejo alimentar e foodservice já enfrentam dificuldades crescentes para contratação e retenção.

A APAS já fala abertamente em “apagão de mão de obra”, enquanto a ABRAS aponta mais de 357 mil vagas abertas no supermercadista — cenário semelhante ao vivido por restaurantes, bares e redes de alimentação.

Geração Z muda lógica do mercado de trabalho

Outro fator que pressiona o setor é a mudança no comportamento da força de trabalho mais jovem. Pesquisas mostram que profissionais da Geração Z priorizam flexibilidade e jornadas menos rígidas.

Segundo levantamento citado no estudo, 63% dos jovens entre 18 e 24 anos preferem trabalhos flexíveis ou por projeto, enquanto 40% trocam de emprego em menos de um ano.

Para o foodservice, a flexibilidade deixou de ser diferencial e passou a ser um critério de retenção de talentos.

Como está a PEC no Congresso

A proposta em tramitação prevê a redução gradual da jornada semanal de 44 para 40 horas e garante dois dias de descanso semanal aos trabalhadores, sendo um preferencialmente aos domingos.

Pelo cronograma atual, a jornada cairia para 42 horas 60 dias após a promulgação da PEC e chegaria às 40 horas um ano depois.

O desafio para o foodservice

Para Simone Galante, fundadora da consultoria Galunion, o momento exige análise estratégica e redesenho operacional.

“O setor precisa tratar esse tema com menos polarização e mais capacidade de adaptação. Algumas operações terão oportunidade de melhora. Outras precisarão de mudanças mais profundas”, afirma.

No foodservice, onde diferentes modelos convivem entre almoço, jantar, delivery e horários alternativos, a discussão sobre flexibilidade tende a se tornar central nos próximos meses.


Conteúdo publicado pela Exame e adaptado para o portal Foodbiz

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