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FoodBiz

Por que a refeição completa continua tão atual

Basta pensar no que vem à cabeça quando falamos em almoço. Podemos pedir pelo aplicativo, comer em uma praça de alimentação, levar uma marmita ou encaixar a refeição entre dois compromissos. Muita coisa mudou na forma como comemos. Mas poucas imagens continuam sendo tão familiares para o brasileiro quanto um prato com arroz, feijão, uma proteína e acompanhamento.

Talvez eu perceba essa permanência de um lugar privilegiado. Trabalho há mais de duas décadas em uma rede construída sobre duas grandes escolhas do brasileiro: o prato de refeição e o sanduíche. Nesse período, vi o delivery ganhar escala, o celular transformar a jornada de compra, novas ocasiões de consumo surgirem e o cardápio acompanhar diferentes demandas.

No meio de tantas mudanças, porém, algo muito simples continua absolutamente atual: a refeição completa.

Somente entre janeiro e agosto de 2026, vendemos mais de 10,2 milhões de pratos nos restaurantes do Giraffas. O número impressiona, mas considero ainda mais interessante entender o que existe por trás dessa escolha.

Uma pesquisa etnográfica recente, realizada pela Galunion a pedido do Giraffas, mostrou que, na relação dos consumidores com a rede, arroz e feijão ocupam um lugar especial. O sabor conta, claro, mas não é o único fator. Existe a familiaridade de encontrar uma refeição conhecida, aquela comida que tem cara de almoço e oferece conforto e segurança na hora de escolher.

A pesquisa traduziu essa relação em uma expressão de que gosto muito: “casa fora de casa”.

Não porque um restaurante reproduza a mesa de ninguém, mas porque existem sabores capazes de oferecer uma referência conhecida mesmo quando estamos longe dela. Pode ser no shopping, durante uma viagem ou no intervalo de um dia corrido. Arroz e feijão têm essa força.

Novos canais, escolhas familiares

Talvez seja justamente isso que torne essa combinação tão interessante em um momento no qual nossas formas de consumir se multiplicaram.

Dados da Worldpanel by Numerator mostram que consumo no local, retirada e delivery, juntos, alcançaram 34% de penetração no primeiro semestre de 2025, oito pontos percentuais acima do ano anterior. No mesmo período, os brasileiros passaram a acessar, em média, oito canais diferentes para consumir fora de casa.

Mudamos a maneira de chegar até a comida sem necessariamente mudar tudo aquilo que buscamos nela.

É nesse contexto que gosto de olhar para o arroz e o feijão. Eles não precisam ser tratados como uma resistência ao novo. Estão no prato servido no restaurante, na refeição retirada no balcão ou no pedido que chega pelo delivery.

Conseguiram acompanhar uma rotina que se tornou mais rápida, digital e flexível sem deixar de representar uma das combinações mais reconhecíveis da nossa alimentação cotidiana.

O valor cultural da refeição

Há também uma dimensão cultural nessa história.

Na Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018, última edição do IBGE com dados detalhados sobre consumo alimentar individual, o arroz havia sido consumido por 76,1% dos brasileiros pesquisados no dia anterior, enquanto o feijão apareceu na alimentação de 60%.

Mais do que uma preferência de cardápio, estamos falando de alimentos presentes no cotidiano de milhões de brasileiros.

Comer, afinal, nunca foi uma decisão puramente funcional. Escolhemos pela praticidade, pelo preço, pela vontade daquele momento e por muitos outros fatores. Mas também escolhemos pelo que nos é familiar.

Há dias em que queremos experimentar algo novo. Em outros, um prato de arroz, feijão e uma boa mistura é exatamente o que procuramos.

Inovar também é entender o que permanece

Para quem trabalha com alimentação, há um aprendizado importante nisso. Inovar não é apenas colocar o novo à mesa. É também entender por que algumas escolhas atravessam tantas mudanças e continuam fazendo sentido para o consumidor.

A transformação do foodservice não precisa significar o abandono das referências que construíram nossa relação com a comida. Pelo contrário: tecnologia, novos canais, conveniência e inovação podem encontrar espaço ao lado de escolhas profundamente incorporadas aos hábitos do brasileiro.

Depois de tantos anos acompanhando esse movimento, talvez seja isso que mais me chame a atenção: o novo encontrou muitos lugares à mesa, mas não precisou tirar o arroz e o feijão de lá.

Em um setor que se reinventa o tempo todo, uma boa refeição continua encontrando o seu lugar.

Sobre a autora

Luciana Morais é Diretora de Marketing, Trade e Comunicação do Giraffas e possui mais de 25 anos de experiência em Publicidade, Marketing e Comunicação Institucional. É bacharel em Comunicação Social pelo UniCEUB, com MBA em Marketing pela FGV e especializações pela ESPM e Insper.

Iniciou a carreira na Giovanni + Draftfcb e na Folha de S.Paulo. Também atuou como franqueada do Giraffas, onde liderou a implantação do primeiro modelo de quiosque da rede, experiência que ampliou sua visão sobre operação, consumidor e negócio.

Desde 2004, ocupa posições estratégicas no Giraffas, com passagens pela diretoria e pelo Conselho de Administração. Atualmente, lidera as áreas de Marketing, Trade e Comunicação, além de estar à frente do projeto de experiência do consumidor (CX) da rede. Sua atuação combina estratégia de marca, experiência do consumidor e conhecimento da operação de foodservice.

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