A discussão sobre novos modelos de jornada no foodservice deixou de ser uma pauta exclusivamente trabalhista e passou a ocupar espaço estratégico dentro das operações.
Em recente encontro do Comitê de Pessoas do IFB, a Cellita Souza, Diretora de RH do Grupo Bacio di Latte, compartilhou a experiência da empresa na implementação da escala 5×2 nas lojas físicas, trazendo reflexões práticas sobre produtividade, gestão operacional, atração de talentos e os desafios reais da adaptação.
O debate mostrou que a mudança vai muito além da escala em si.
O que está impulsionando a discussão
Entre os principais motivadores para a adoção do modelo estão:
- dificuldade de atração de mão de obra;
- turnover elevado nas lojas;
- busca por maior equilíbrio entre vida pessoal e trabalho;
- pressão crescente por melhores condições de jornada;
- necessidade de tornar o setor mais competitivo na disputa por talentos.
Durante a conversa, foi destacado que a demanda por qualidade de vida aparece de forma consistente em pesquisas internas, entrevistas de desligamento e no contato direto com os times operacionais.
A implementação exigiu revisão operacional
Ao compartilhar o case da Bacio di Latte, Cellita explicou que a implementação começou no final de 2024, inicialmente em formato piloto, durante o período de alta temporada.
A jornada semanal foi mantida em 44 horas, com redistribuição da carga em cinco dias de trabalho. O modelo começou com cargos operacionais de base e, posteriormente, foi expandido para lideranças intermediárias.
Um dos principais aprendizados compartilhados foi que a adoção da escala 5×2 acabou funcionando também como um projeto de produtividade operacional.
Na prática, para sustentar o modelo sem perda de eficiência, a empresa precisou rever:
- fluxos de trabalho;
- distribuição das equipes;
- horários de entrada;
- processos internos;
- gestão de filas e atendimento;
- estudos de tempos e movimentos.
Iniciativas como reorganização operacional e implementação de soluções para redução de filas passaram a ganhar prioridade justamente para compensar os impactos da nova dinâmica de jornada.
O consenso entre os participantes foi claro: implementar o 5×2 sem revisar a operação tende a gerar sobrecarga e perda de eficiência.
Liderança apareceu como fator decisivo
Outro aprendizado recorrente foi o peso da liderança local no sucesso da implementação.
Segundo Cellita, lojas cujos gestores compraram a ideia tiveram adaptação mais rápida e percepção mais positiva por parte dos times.
Já operações com resistência da liderança enfrentaram maiores dificuldades na organização das escalas, clima interno e execução da rotina.
Isso reforça um ponto importante para o setor: mudanças de jornada exigem não apenas ajustes técnicos, mas também alinhamento cultural e preparo da liderança operacional.
Escala ainda é um dos maiores desafios
A gestão das escalas apareceu como uma das maiores dores operacionais durante o processo.
Entre os desafios mencionados estão:
- aumento da complexidade no planejamento;
- necessidade de múltiplos horários de entrada;
- maior volume de ajustes de ponto;
- baixa maturidade de gestão em algumas operações.
Nesse contexto, tecnologia e inteligência artificial surgiram como temas importantes na discussão.
Os participantes debateram o potencial de:
- sistemas inteligentes de escala;
- automação de validações;
- ferramentas de apoio ao planejamento operacional;
- treinamentos específicos para gestão de jornada.
A percepção do grupo é que operações mais estruturadas tendem a absorver melhor a mudança.
Os impactos percebidos até agora
Entre os resultados positivos observados pelas empresas estão:
- melhora na atração de candidatos;
- aumento da satisfação dos colaboradores;
- redução de faltas sem justificativa;
- melhora da experiência do cliente;
- evolução de indicadores de NPS.
Por outro lado, alguns indicadores apresentaram impacto mais limitado.
Em determinados casos, o turnover chegou a melhorar inicialmente, mas voltou a subir posteriormente. Já o absenteísmo médico não apresentou redução significativa.
Uma reflexão interessante levantada durante o encontro foi que parte dos colaboradores utiliza os dias livres para complementar renda em outros trabalhos, o que reduz o impacto esperado sobre descanso físico e recuperação.
E os pequenos operadores?
O debate também trouxe preocupações sobre a realidade das pequenas empresas do foodservice.
Os principais desafios apontados foram:
- custo adicional de mão de obra;
- menor capacidade de investimento em tecnologia;
- dificuldade de reorganização operacional;
- baixa maturidade em gestão de escalas.
Ainda assim, houve consenso de que existe uma oportunidade importante de ganho de produtividade no setor.
Muitas operações ainda funcionam de forma bastante empírica, e a discussão sobre jornada pode acelerar melhorias estruturais que vão além da questão trabalhista.
Mais do que jornada, uma discussão sobre eficiência
Ao longo do encontro, ficou evidente que o debate sobre redução de jornada no foodservice não pode ser analisado apenas pelo prisma do custo.
Na prática, as empresas começam a perceber que modelos mais sustentáveis de trabalho exigem operações mais eficientes, lideranças mais preparadas e maior uso de tecnologia.
A discussão sobre o 5×2, portanto, passa a funcionar também como um catalisador para revisões estruturais dentro do setor.







