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Proteína não precisa ser protagonista para uma alimentação saudável, diz estudo

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Quando pensamos em uma alimentação equilibrada, a proteína quase sempre aparece no centro do prato. Para muitas pessoas, ela é sinônimo de saúde, energia e força. De um lado, organizações internacionais associam a fome à baixa ingestão de proteínas. Do outro, influenciadores fitness reforçam o consumo elevado do nutriente, muitas vezes com suplementos como o whey protein. Mas será que precisamos realmente colocar a proteína nesse pedestal?

Pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública da USP, em parceria com o Instituto de Estudos Avançados e o Nupens, analisaram dados nacionais e chegaram a uma conclusão importante: os brasileiros, de forma geral, já consomem proteínas em quantidade suficiente. O grande desafio está em diversificar o prato e incluir mais frutas, verduras e legumes.

Quanto de proteína é suficiente?

Segundo a Organização Mundial da Saúde, 0,8 grama de proteína por quilo de peso corporal por dia já é o bastante para atender às necessidades fisiológicas. Isso significa, para um adulto médio, o equivalente a uma porção de 180 g de peito de frango.

No Brasil, mesmo entre a população de menor renda, o consumo médio de proteína é adequado. Enquanto a OMS recomenda que ela represente de 10% a 15% das calorias diárias, o brasileiro atinge, em média, 18% — índice presente inclusive nos estratos sociais mais baixos.

Para os especialistas, a carência de proteína só acontece em casos de fome severa. Ou seja, quando o organismo não recebe calorias suficientes, acaba “queimando” a proteína para gerar energia, em vez de usá-la para funções vitais. Já o consumo exagerado, muitas vezes estimulado pela indústria de suplementos, só é recomendado para atletas de alto rendimento — e dentro de limites bem específicos.

O que falta no prato dos brasileiros?

O problema não é a quantidade de proteína, mas sim a falta de variedade alimentar. Dados do Ministério da Saúde mostram que 79% da população adulta nas capitais brasileiras não consome a quantidade mínima recomendada de frutas, verduras e legumes.

Para Ricardo Abramovay, professor do IEA, o foco deve estar na diversidade: “Não é comer muita carne, e sim muitos alimentos diferentes.” Essa perspectiva reforça a importância do Guia Alimentar para a População Brasileira, que prioriza a variedade e o equilíbrio em vez de metas nutricionais isoladas.

Insegurança alimentar: além da quantidade, a qualidade

Embora o Brasil tenha reduzido a insegurança alimentar grave em 2023, milhões de pessoas ainda enfrentam dificuldades para acessar alimentos de qualidade. O desafio não se resume à produção — que já é suficiente para atender a todos — mas sim à distribuição e ao acesso, especialmente em regiões caracterizadas como “desertos alimentares”, onde predominam produtos ultraprocessados baratos e faltam opções frescas.

Um olhar para o sistema agroalimentar

Outro ponto levantado pelos pesquisadores é o peso da pecuária no sistema global de produção de alimentos. Hoje, 70% das áreas habitáveis do planeta (desconsiderando desertos e geleiras) estão voltadas para a criação de animais ou para o cultivo de grãos que servem de ração. Esse modelo, além de pressionar o meio ambiente com desmatamento e emissões de gases, reforça um consumo de proteína animal muito acima do necessário.

Menos mito, mais diversidade

A ideia de que proteína é a chave da boa alimentação se fortaleceu ao longo de décadas, muitas vezes por influência de interesses econômicos e da própria indústria. Mas a ciência tem mostrado que o que realmente importa é a combinação de diferentes alimentos, respeitando a cultura alimentar e a biodiversidade local.

Para a pesquisadora Nadine Marques, é fundamental que a educação alimentar comece cedo, ainda na infância. “Quando as crianças aprendem de onde vêm os alimentos e qual a lógica da produção, crescem com mais consciência para fazer escolhas melhores no futuro”, afirma.



Fonte: Agência SP

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